História

Reino de Kush

O antigo Reino de Kush ou Cuxe localizava-se na Núbia, uma extensa região situada ao sul do Egito, onde, atualmente, encontram-se o Egito e o Sudão.

Por possuir uma grande quantidade de minas de ouro, os árabes chamavam a região de nuba (nub significa ouro na escrita hieroglífica; assim, núbia significa terra do ouro).

História

Formação e fortalecimento

Em tempos mais remotos, a região da Núbia foi utilizada como importante ponto de encontro entre os povos do Mediterrâneo e da África Central.

Por volta de 2000 a.C., após várias lutas e conflitos entre diversas aldeias, surgiu o Reino de Kush. Descobertas arqueológicas recentes mostram que sua história está diretamente ligada à história do Egito, pois objetos de madeira e pedras preciosas núbias foram encontrados em terras egípcias. No entanto, as relações entre egípcios e núbios nem sempre foram amistosas.

Mapa com a localização do Reino Kush.
Localização do Reino Kush, entre os atuais Egito e Sudão.

Entre 1580 a.C. e 1530 a.C., aproximadamente, o Egito conquistou o Reino de Kush. Durante o domínio egípcio, o governo na região da Núbia era exercido por um vice-rei de origem cuxita, nomeado pelo próprio faraó. Os cuxitas também eram obrigados a pagar tributos aos egípcios. Por volta de 1000 a.C., o Reino de Kush conseguiu se libertar do controle egípcio, embora o contato entre esses povos tenha permanecido.

Quando o Egito foi invadido pelo exército assírio, no século VIII a.C., para se libertar desse controle, um grupo de sacerdotes egípcios pediu ajuda a Piye, rei de Kush, que conseguiu expulsar os invasores e, assim, dominar o enfraquecido Egito. Após a conquista, toda a 25ª dinastia de faraós egípcios (de 750 a.C. a 660 a.C.) foi composta por reis núbios, conhecidos como faraós cuxitas ou, por alguns, como “faraós negros”.

Os faraós cuxitas usavam coroas enfeitadas com duas serpentes, que simbolizavam o controle de Kush e do Egito.

Faraós negros.
Estátuas dos faraós negros da 25ª dinastia, de origem núbia.

Declínio

Embora a união entre o Reino de Kush e o Egito tenha criado um poderoso império, os ataques assírios contra a região continuaram. O último dos faraós núbios, Tenutamon, foi derrotado e obrigado a voltar à cidade cuxita de Napata. Após a derrota para os assírios, os egípcios buscaram apagar grande parte dos vestígios deixados pelos faraós cuxitas que ali governaram. Muitos monumentos e estátuas de faraós cuxitas foram encontrados destruídos, com cabeças e pés esmagados.

Mesmo com o fim da dinastia dos faraós cuxitas, o Reino de Kush não desapareceu, sendo reorganizado ao redor da cidade de Méroe.

Seu declínio só ocorreu nos primeiros séculos da Era Cristã, provavelmente em razão da perda do controle das rotas comerciais até então existentes, do desmatamento para abertura de pastos, o que enfraqueceu o solo e baixou a produção de alimentos, e, também, de ataques de povos nômades, que causaram a ruína do comércio e a perda de regiões de mineração. Entre 320-350 d.C., o reino africano de Axum, situado ao norte da atual Etiópia, conquistou o Reino de Kush.

Economia

Inicialmente, os núbios viviam como nômades, dedicando-se à caça, pesca e coleta de alimentos. Assim como os egípcios, eles desenvolveram ao longo do tempo técnicas para represar e canalizar as águas do Rio Nilo. Ao utilizarem esses recursos, tornaram-se sedentários.

Economia no Reino Kush.
Representação da utilização de um shaduf para coleta de água em rios, método que os cuxitas utilizavam, muito parecido com o sistema de irrigação egípcio.

Até o fim da dinastia dos faraós cuxitas, a capital do Reino de Kush era Napata. Os cuxitas desenvolveram, nesse período, atividades ligadas à pecuária, com a criação de cabras, cavalos e burros. Com o fim da dinastia cuxita, a capital do reino foi transferida para Méroe, e as atividades passaram a ser mais dedicadas à agricultura, especialmente de trigo, cevada e sorgo ou durra (espécie de cereal similar ao milho e rico em proteínas), visto que as novas terras recebiam chuvas mais abundantes.

Para irrigar suas plantações com as águas do Nilo, os cuxitas usavam o shaduf, um mecanismo composto por um cesto e uma alavanca. Com o passar do tempo e em razão das experiências de carpinteiros e ferreiros, o shaduf foi substituído pela saqia, ferramenta movida pela força de animais.

As terras do Reino de Kush também eram ricas em metais, como o ferro e o ouro, e em pedras preciosas. Não se sabe ao certo quando a metalurgia se desenvolveu na região, porém foi no século IV a.C. que ela passou a ocorrer em grande escala. As atividades de mineração eram controladas pelo poder real cuxita, o que permitia aos governantes a manutenção de seus poderes e fortunas. O ouro, especialmente, era utilizado em trocas comerciais com Egito e Roma.

Cultura

A experiência com pedras e metais preciosos estimulou o desenvolvimento do artesanato, que possuía desenhos bastante refinados em suas peças. As atividades artesanais de marceneiros, ferreiros e tecelões eram muito valorizadas no reino.

A cerâmica também foi bastante desenvolvida pelos cuxitas e, no início, era feita somente pelas mulheres, o que mudou com o passar do tempo. Os vasos tinham, geralmente, a base arredondada e traziam representações de cenas cotidianas, bem como da fauna e da flora da região.

Artes no Reino Kush.
Copos de cerâmica encontrados durante a escavação de um cemitério meroítico.

As peças produzidas eram comercializadas na cidade de Méroe. A capital estava localizada em uma região que abrigava rotas por onde passavam caravanas de comerciantes que vendiam as mercadorias em troca de outros produtos, como exemplo, cobre e marfim.

O comércio estimulou trocas culturais entre cuxitas e outros povos, como egípcios, gregos, persas e indianos. Porém, os cuxitas tinham consciência sobre sua própria independência, o que representava um grande incentivo para que inventassem técnicas específicas e estimulassem sua própria cultura.

Além de Napata e Méroe, o Reino de Kush possuía outras importantes cidades, como Pnubs, Naga, Dongola, Farás, Argos, Kawa e Soba.

Pirâmides cuxitas

O atual Sudão é o país que abriga a maior quantidade de pirâmides construídas e preservadas: cerca de 255 monumentos, número superior ao do Egito, que possui 138 construções.

Os cuxitas, assim como seus vizinhos egípcios, também adotaram o costume de enterrar alguns mortos em pirâmides. No entanto, havia diferenças entre os rituais dos dois povos: enquanto os sepultamentos cuxitas aconteciam sob as pirâmides, os sepultamentos egípcios ocorriam dentro dos monumentos. As pirâmides cuxitas eram construídas, em média, com alturas que variavam de seis a trinta metros, sendo bem mais estreitas e pontiagudas que as egípcias.

Pirâmides cuxistas.
Pirâmides da antiga capital Méroe, no atual Sudão.

Sociedade e política

A escolha dos reis cuxitas era realizada de forma diferente do que ocorria no Egito, onde o faraó era sucedido por seu filho. Em Kush, geralmente, os líderes das comunidades (chefes militares, altos funcionários do reino, líderes de clãs e sacerdotes) votavam no líder considerado mais capacitado e preparado para exercer a função de rei. Depois, em um ritual, lançavam sementes ao chão para perguntar ao deus Amon se a escolha havia sido correta. Caso os sinais fossem positivos, os cuxitas realizavam uma grande festa e o candidato a rei apresentava-se ao templo de Amon, onde era coroado.

No Reino de Kush, o rei não governava sozinho. Altos funcionários e conselheiros, o escriba-mor e outros escribas, chefes do tesouro, chefes de arquivo, entre outros, auxiliavam-no na administração do reino. Ele também contava com uma guarda pessoal para sua proteção e com os conselhos de um comandante militar.

Os militares eram valorizados na sociedade cuxita, pois a proximidade com o Egito os mantinha sempre em alerta para possíveis guerras e conflitos. Seus exércitos eram compostos por arqueiros e guerreiros.

É importante destacar que as mulheres possuíam um papel importante na política cuxita. Muitas delas, mães ou esposas dos reis, conseguiram chegar ao poder, sendo consideradas candaces, que significava Rainhas-Mães. Entre as candaces mais importantes, podemos citar Amanishaketo (420 a 412 a.C.) e Amanirenas (40 a 10 a.C.). Acredita-se que, em 21 a.C., tropas romanas comandadas pelo general Otávio Augusto tentaram invadir o Reino de Kush. Os cuxitas, liderados pela candace Amanirenas, conseguiram negociar um acordo de paz com os invasores, segundo o qual estariam livres de pagar certos impostos aos romanos.

Organização da sociedade

A camada dirigente era formada pelo rei e seus familiares, além de nobres e sacerdotes. Também havia uma aristocracia provicincial. Abaixo dela, havia comerciantes, artesãos, soldados e funcionários do reino. Por fim, os criadores de animais e agricultores, todos livres, formavam a maioria da população cuxita.

Religião cuxista

Assim como os egípcios, os cuxitas eram politeístas e cultuavam tanto divindades egípcias quanto deuses meroítas. Entre as divindades egípcias cultuadas, estavam Amon, o deus Sol, Osíris, o deus dos mortos, e Hórus, deus falcão e protetor dos vivos. Já as divindades meroítas eram o deus-leão Apedemak, deus com cabeça de leão e corpo humano, considerado a divindade da guerra e protetor dos exércitos, e Sbomeker, deus orientador e guerreiro. Além disso, alguns animais eram considerados sagrados, como o carneiro, o leão, o crocodilo e o gato.

Referência

  • CUNHA, Sonia Ortiz; GONÇALVES, José Henrique Rollo. Cuxe: o resgate histórico de um antigo Reino Núbio.
  • Unesco. História geral da África II: África antiga. 2. ed. rev. – Brasília: Unesco, 2010.

Por: Wilson Teixeira Moutinho