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Intertextualidade

Intertextualidade é o diálogo estabelecido entre diferentes textos. Ocorre quando uma produção textual faz referência a outra, de maneira implícita ou explícita. Esse recurso é comum na expressão verbal escrita, como na literatura, mas também pode ocorrer em produções sonoras ou audiovisuais.

Desse modo, romances, poemas, filmes, novelas, séries, canções, publicidade e outras produções podem fazer referência a um texto de mesmo gênero, por exemplo, a temática de Chapeuzinho Vermelho é retomada em outras duas obras de autores brasileiros: Chapeuzinho Amarelo, de Chico Buarque, e “Fita verde no cabelo”, de Guimarães Rosa.

Esse diálogo entre textos pode ser de diversos tipos, dependendo do objetivo do autor, que estabelece a intertextualidade por diferentes formatos de linguagem. Veja os principais:

  • Paródia: uso do humor para citar o conteúdo ou o estilo de um texto.
  • Epígrafe: frases que sintetizam o texto e convidam à leitura.
  • Citação: fragmentos de outros textos, literais ou não.
  • Paráfrase: textos reescritos com palavras diferentes, sem alterar o sentido original.
  • Alusão: referências a outros textos por meio de sugestões.
  • Tradução: versão de um texto de língua para outra sem perder o sentido.
  • Pastiche: reprodução do estilo de outro autor para criar um texto novo.

Veja abaixo, em mais detalhes e exemplos, cada um deles.

Paródia

Tem a finalidade de tornar certo texto irônico, cômico, com base em outro. A paródia imita o texto ao qual faz referência, mas insere elementos que provocam o humor, muitas vezes, o humor crítico. Assim, o objetivo da paródia pode ser simplesmente entreter por meio do riso, mas também criticar a produção parodiada.

Meus oito anos

“(…) Oh! que saudades que tenho
Da aurora da minha vida,
Da minha infância querida
Que os anos não trazem mais!
— Que amor, que sonhos, que flores,
Naquelas tardes fagueiras
A sombra das bananeiras
Debaixo dos laranjais!” –

Casimiro de Abreu

Meus oito anos

Oh que saudades que eu tenho
Da aurora de minha vida
Das horas
De minha infância
Que os anos não trazem mais
Naquele quintal de terra
Da Rua de Santo Antônio
Debaixo da bananeira
Sem nenhum laranjais”

Oswald de Andrade

O poema de Oswald de Andrade, modernista, não visa à idílica rememoração do paraíso da infância, bucólico, presente na obra do poeta romântico. Seu poema estabelece um discurso de oposição, ressalta pela ironia a existência de uma infância não idealizada e vivida na cidade grande e não no campo.

Epígrafe

A epígrafe é o recurso que permite estabelecer uma relação com outro texto logo no início de uma produção textual, pois consiste em uma citação direta na abertura de um texto literário ou artigo científico.

Esse posicionamento da referência a um texto diz respeito à sua função: estabelecer uma relação entre as obras, de modo que a obra citada auxilie na leitura da produção que se seguirá, antecipando no mínimo a temática tratada.

Um caso interessante do uso da epígrafe é o encontrado no romance brasileiro Inocência, de Visconde de Taunay. Nesse romance todos os capítulos são antecedidos por uma epígrafe extraída de fontes tão distintas como a Bíblia e Goethe, obra do escritor Fausto. Elas lançam sobre o enredo romântico da obra a sugestão de reflexões mais universais sobre os assuntos apresentados.

Primeiro capítulo de Inocência, de Visconde de Taunay.

Citação

A citação é o caso tradicional de intertextualidade explícita. Muito presente em textos científicos, acadêmicos, técnicos, enfim, nas modalidades objetivas de comunicação escrita, consiste na apresentação de um trecho de um texto anterior, devidamente destacado como tal, e com a devida indicação de sua origem, a referência bibliográfica.

Nas artes, também surge, com a liberdade de não apresentar a indicação completa da origem, como pode ser visto na música “O Estrangeiro” de Caetano Veloso.

O pintor Paul Gauguin amou a luz da Baía de Guanabara
O compositor Cole Porter adorou as luzes na noite dela
A Baía de Guanabara
O antropólogo Claude Levy-Strauss detestou a Baía de Guanabara:
Pareceu-lhe uma boca banguela.
E eu, menos a conhecera, mais a amara?
Sou cego de tanto vê-la, de tanto tê-la estrela
O que é uma coisa bela?” (…)

Trecho de “O Estrangeiro”, de Caetano Veloso

Paráfrase

A paráfrase retoma uma ideia ou conceito com reprodução semelhante da utilizada originalmente para que o leitor consiga recuperar a informação à qual se refere. Observe os poemas de Gonçalves Dias e de Casimiro de Abreu com a mesma temática:

Canção do exílio

Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá;
As aves, que aqui gorjeiam,
Não gorjeiam como lá.

Nosso céu tem mais estrelas,
Nossas várzeas têm mais flores,
Nossos bosques têm mais vida,
Nossa vida mais amores.

[…]

Não permita Deus que eu morra,
Sem que volte para lá;
Sem que desfrute os primores
Que não encontro por cá;
Sem qu’inda aviste as palmeiras,
Onde canta o Sabiá.
[…]

GONÇALVES DIAS

Canção do exílio

Se eu tenho de morrer na flor
[dos anos,
Meu Deus! não seja já;
Eu quero ouvir na laranjeira, à tarde,
Cantar o sabiá!

Meu Deus, eu sinto e tu bem vês
[que eu morro
Respirando este ar;
Faz que eu viva, Senhor! dá-me
[de novo
Os gozos do meu lar!

O país estrangeiro mais belezas
Do que a pátria, não tem;
E este mundo não vale um só
[dos beijos
Tão doces duma mãe!
[…]

Casimiro de Abreu

Repare que, no poema de Casimiro de Abreu, mesmo com algumas estruturas diferentes, os sentidos da “Canção do Exílio”, de Gonçalves Dias, são recuperados: a exaltação à beleza da terra natal, o desejo de que a morte não ocorra sem estar próximo à pátria e o pedido a Deus de que suas vontades sejam realizadas. Além disso, na paráfrase da “Canção do Exílio”, há a repetição de “sabiá” e nomes de árvores; no texto original, cita-se “palmeira”; no parafraseado, “laranjeira”.

Alusão

A alusão consiste no estabelecimento do diálogo com outro texto por meio de uma sugestão – é inserido um elemento que possa ser reconhecido pelo público como pertencente a outro texto.

Por exemplo, se, em um desenho animado, uma personagem oferece uma maçã envenenada a outra personagem, essa narrativa faz alusão à história Branca de Neve, e o público tende a facilmente identificar tal referência.

Referência

Convenciona-se considerar a referência uma menção mais óbvia, que não chega a ser uma citação, mas é muito claramente ligada a uma obra anterior. Por exemplo, mencionar o título de um romance ou o nome de algum personagem em sua obra: no conto “Missa do Galo”, de Machado de Assis, por exemplo, o narrador cita sua leitura de Os Três Mosqueteiros de Alexandre Dumas.

“Tinha comigo um romance, Os Três Mosqueteiros, velha tradução creio do Jornal do Comércio. Sentei-me à mesa que havia no centro da sala, e à luz de um candeeiro de querosene, enquanto a casa dormia, trepei ainda uma vez ao cavalo magro de D’Artagnan e fui-me às aventuras. Dentro em pouco estava completamente ébrio de Dumas”

Trecho de Missa do Galo, obra de Machado de Assis.

Pastiche

O pastiche é, em sua origem, um termo eminentemente pejorativo. A primeira definição doDicionário Houaiss é “imitação servil de obra literária ou artística”. O pastiche imita o estilo de outra obra, sem necessariamente ter uma intenção sarcástica ao fazê-lo. Normalmente, assimila um estilo, uma estrutura, para expressar um conteúdo distinto do original, o que o distingue da paráfrase, que busca se aproximar o máximo possível do referente. Também pode se utilizar do procedimento da mescla de estilos e da colagem de trechos de um ou mais textos, efetuando apropriação do discurso de terceiros.

Por vezes o pastiche surge como uma espécie de homenagem, como quando um quadro famoso como a Mona Lisa é reelaborado num desenho da Turma da Mônica. Em outras ocasiões a colagem de distintos estilos cria algo inusitado como uma mistura de ópera e rock na canção da banda Queen, “Bohemian Rhapsody”.

Por: Wilson Teixeira Moutinho

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