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Opinião: importância, divergência e o discurso de ódio

A opinião é um discurso pessoal que expressa uma ideia sobre determinado fato. Hoje em dia, o termo tem estado em evidência, principalmente nos discursos feitos em redes sociais.

O discurso é uma ferramenta importante para a vida em sociedade. É por meio dele que expressamos nossas impressões e percepções do mundo que nos cerca. Cada pessoa possui uma vivência, que singulariza sua existência; portanto, fazer com que nossas ideias sejam percebidas de fato como foram pensadas pode ser uma difícil tarefa.

Está longe de haver um claro manual sobre como devemos expressar nossas opiniões, mas o importante é entendermos aquilo que devemos considerar ao recebermos as opiniões alheias. A construção de um discurso deve ser feita sobre fatos, ou seja, em ideias que podem ser comprovadas. Não só saber falar, respeitando as pessoas, mas saber distinguir quando alguém profere um discurso pautado em ideias para além de “achismos”, ou, mesmo, ódio.

A importância de ter opinião

Ter opinião nos situa no mundo e nos define como sujeitos. Assim, a expressão de uma opinião é o que nos faz ser vistos pelo outro. Não só na fala a opinião se manifesta; expressões artísticas e cada uma de nossas ações são maneiras de – consciente ou inconscientemente – expressarmos juízo de valor sobre pequenos ou grandes fatos. Existe, assim, uma impossibilidade de neutralidade diante dos acontecimentos.

Diante de determinada situação de injustiça, podemos tomar a seguinte escolha:

  • a) fico ao lado daquele que comete a injustiça;
  • b) opto pelo lado do que sofre a injustiça;
  • c) não escolho lados, mantenho-me neutro na situação.

Se foi dito que todas as nossas ações revelam um posicionamento, é, em uma lógica, fato que ao assumirmos a posição c), de falsa neutralidade, adotamos um papel conivente com a situação, que revela, na verdade, um conformismo e uma concessão à continuidade da injustiça, quase como se tivéssemos adotado a postura a). “Manter-se neutro é assumir o lado da injustiça”, frase célebre do pensador Desmond Tutu a respeito da luta contra o apartheid.

Dessa forma, a importância de assumir uma opinião mostra-se necessária à participação das pessoas nas transformações da sociedade. Analisar os fatos e formar opinião permite nos posicionarmos no mundo de maneira afirmativa, consciente e menos suscetível às manipulações. Ouvir com respeito as opiniões alheias e saber julgá-las é um passo importante na formação do indivíduo crítico.

Portanto, o indivíduo crítico é aquele que compreende que todos os seus atos demandam um posicionamento. Formar a própria opinião de maneira crítica e consciente combate posicionamentos retrógrados e violentos, que nada fazem em prol de um avanço humanitário na sociedade. Entender o quão importante é assumir uma opinião (sem deixar de lado, também, a necessidade crítica de duvidar das informações que lhe chegam, a fim de produzir uma ideia de mundo sensível e apurada) é, por si só, um ato de tolerância, a favor de um mundo muito mais humano.

Imagem de uma balança com mitos de um lado e fatos do outro.
Analisar os fatos e formar opinião permite nos posicionarmos no mundo de maneira consciente.

Divergência de opiniões

A divergência de opiniões ocorre quando duas ou mais pessoas apresentam modos diferentes de pensar sobre um determinado tema em discussão. Atualmente, ela tem parecido exacerbada, devido à propagação e repercussão de manifestações opinativas pelas redes sociais. Ela é, porém, algo inerente à convivência entre os seres humanos. O ser humano tem a capacidade de refletir sobre determinados assuntos e isso gera pontos de vista diferentes entre as pessoas, sejam eles relacionados à política, à economia, à sociedade, à cidadania, entre outros.

A liberdade de expressão garante que as pessoas possam expor suas opiniões sem medo de serem perseguidas. Uma opinião é apenas um ponto de vista de outra pessoa sobre determinado assunto. Para uma boa comunicação e para que todos possam expor suas opiniões é necessário respeito. O interlocutor deve argumentar para defender a sua opinião, mas também deve ouvir a opinião do outro, prestando atenção no que ele está falando.

Embora muitos entendam que a divergência de opiniões é algo negativo, ela constituiu fator essencial para o desenvolvimento da sociedade. Ela é importante, por exemplo, para o avanço na ciência. Quando um cientista discorda da pesquisa de outro, ele o faz por meio do debate e de novas pesquisas, gerando, com isso, mais pesquisas e possibilitando o avanço científico a partir dos resultados. Outro campo no qual a divergência de opiniões se faz presente é na filosofia, na qual grandes questões são debatidas. Tanto na ciência, quanto na filosofia, a divergência é de interesse público.

Existe uma técnica usada em resoluções de conflitos que é conhecida como comunicação não violenta ou escuta empática. Ela foi desenvolvida pelo psicólogo norte-americano Marshall Rosemberg e hoje é aplicada até em áreas de conflito. Segundo ele, em um ambiente onde predominam a dominação e a competitividade, a agressividade pode ser estimulada.

Para que isso não aconteça, uma boa comunicação é necessária. O ouvir é um dos pontos de destaque na comunicação não violenta, sendo que uma escuta sem julgamento do que o outro está dizendo possibilita uma exposição de ideias na qual não há vencedores.

Duas pessoas conversando.
Ouvir a opinião do outro é importante mesmo que ela seja contrária à sua.

Para que a comunicação exista é, portanto, preciso que os envolvidos estejam interessados em criar uma conexão. Ao ouvir uma opinião divergente em qualquer assunto e, em seguida, adotar posicionamento em retaguarda, sem ouvir o outro, cria-se um bloqueio na comunicação, prejudicando o conhecimento de novas ideias. Expressar seus sentimentos em relação à opinião do outro e se colocar no contexto social do outro são também formas de gerar uma comunicação empática e, assim, saudável.

A opinião e o discurso de ódio

Não há um manual com orientações de como se emite uma opinião. Se desejar, é possível opinar sobre o lançamento de foguetes pela NASA. Contudo, é consenso a necessidade do respeito e da tolerância. Se, por exemplo, após a sua opinião, um astronauta decidir compartilhar a dele, devemos levar em consideração que ele, muito provavelmente, terá mais argumentos e propriedade para tratar do assunto. Assim, tão importante quanto ter opinião é saber, também, ouvir, respeitar e entender a opinião e o local de fala do outro.

O que infelizmente vem acontecendo é a usurpação dessa ideia de que todos podem ter uma opinião mesmo que ela possa incitar um discurso odioso. Ofensas devem ser tidas como opiniões equivocadas. Dessa forma, o mínimo que o dono delas poderia fazer é ouvir o outro lado. Entretanto, muitas vezes, algumas pessoas não dão espaço para que outros apresentem o ponto de vista deles, defendendo seu discurso de ódio como uma forma de expressão.

Ter opinião é importante – saber formá-la, também. Cidadão crítico é aquele que tem opiniões, que ouve todos os lados e pondera cautelosamente. Saber formar opinião na nossa sociedade, em que algumas pessoas espalham fatos falsos na tentativa de disseminar o discurso odioso, é imprescindível para evitar a reprodução de ideias equivocadas.

Na internet, por exemplo, uma imagem contendo uma mentira facilmente se espalha, induzindo as pessoas a um julgamento equivocado. Saber formar opinião consiste também em sempre observar a procedência dos fatos que são apresentados paralelamente a ela, verificando quem são suas fontes, por exemplo.

A opinião é uma ideia, e as ideias são poderosas e transformadoras. Aprender a construí-las, embasando-as com argumentos sobre fatos, é um modo de se posicionar diante os acontecimentos do mundo. Ter opinião sobre algo reflete o espírito crítico do ser humano; saber tê-la, por sua vez, demonstra a capacidade de diálogo e debate da pessoa.

Por: Wilson Teixeira Moutinho

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