Português

Polissemia

Uma palavra pode apresentar diferentes significados, dependendo do contexto em que se encontra. Afinal, não são somente seus constituintes estruturais que nos indicam seu significado, mas também os conhecimentos extralinguísticos do falante.

Como o nome indica, polissemia (poli = vários e semia = significado) trata-se da possibilidade de uma mesma palavra (ou expressão) significar ideias diferentes. É algo muito comum e que pode ocorrer com a maioria dos vocábulos, pois o significado exato sempre depende do contexto em que se insere.

Exemplo 1

Pense no sentido do verbo “ver” e leia abaixo duas situações de uso bem diferentes:

  • (numa sala de televisão) – Você viu esta cena?
  • (numa padaria) – Me veja dois pãezinhos, por favor.

Perceba que, no segundo caso, o verbo não mantém nenhuma relação com seu significado original, que seria: “perceber pela visão, enxergar”. O funcionário da padaria precisa ter percepção da situação comunicativa em que se encontra. Afinal, se ele levasse ao pé da letra, ficaria só olhando para os pãezinhos – o que seria absurdo.

Isso mostra que nossa compreensão dos enunciados não se deve exclusivamente ao processamento das estruturas linguísticas, mas também deve ser associada a outros fatores, ligados ao contexto de comunicação e ao conhecimento prévio dos falantes.

Exemplo 2

Quando buscamos o significado de determinada palavra no dicionário, podemos nos deparar com vários, pois ali se indicam possíveis variações de contexto em que tal vocábulo adquire diferentes significados. Por exemplo, veja alguns sentidos possíveis para o verbo “dar”, encontrado no dicionário Houaiss da língua portuguesa:

  • Ceder, entregar, oferecer – Deu dinheiro a um necessitado.
  • Ser noticiado ou apresentado – Deu na tv que vai chover.
  • Efetuar, executar – Deu um pulo.
  • Bater, soar – O relógio deu onze horas.
  • Reagir psicologicamente de um modo recíproco – Sempre se deram mal.
  • Deparar-se com, topar, encontrar – Deu com a filha namorando na sala.

É da natureza do idioma que as palavras sejam polissêmicas; o interessante é quando alguns textos (principalmente literários ou publicitários) exploram a polissemia com a intenção de gerar efeitos poético.

Exemplo 3

Veja como Millôr Fernandes brinca com a polissemia das palavras para gerar humor nos textos Ministério das perguntas cretinas e Ministério das perguntas cretinas com respostas engatilhadas.

  • A boca da noite diz nome feio?
  • Cabo de faca pode ser promovido a sargento? (…)
  • A chapa de raio-X foi muito votada? (…)
  • Marmelada falsificada é marmelada? (…)
  • P. O curso do rio dá diploma?
  • R. Só se o sujeito for muito pro fundo. (…)
  • P. Na Bienal, tem fratura exposta?
  • R. Quando os críticos entram em desacordo. (…)
  • P. Um químico pode ter ações precipitadas?
  • R. Pode, mas nunca é uma boa solução.

Exemplo 4

A propaganda abaixo também se vale do efeito gerado pela polissemia.

Outdoor com a seguinte frase: Quem lê o NESS fala bem.

Nessa propaganda, há duas possíveis compreensões: quem lê o jornal fala bem dele, recomenda-o para os outros ou, então, quem o lê adquire bom vocabulário, por isso se expressa bem. A ambiguidade do verbo “falar”, nesse caso, é totalmente positiva, pois amplia a qualidade do produto anunciado.

Diferença entre homonímia e polissemia

Como saber se uma palavra que apresenta dois significados é um caso de polissemia ou de homonímia?

O exemplo da palavra “gato” é um caso óbvio de polissemia. É uma palavra que foi adquirindo novos usos. Existe uma só denotação (felino) e, depois, vem outra conotação da mesma palavra (rapaz bonito).

Já quando duas palavras têm origens diversas, são de classes gramaticais distintas ou possuem distância semântica muito grande, consideramos que são homônimas, ou seja, duas palavras diferentes que, por acaso, são grafadas da mesma maneira. É o caso de “manga” (de camisa) e “manga” (fruta), por exemplo.

Por: Wilson Teixeira Moutinho

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