As Naus

Não está a nau dos séculos XV e XVI aureolada daquela glória da caravela, nem evoca as aventuras guerreiras do galeão. Mas, na realidade, foi a nau portuguesa do século XVI o esteio da extraordinária expansão da civilização Mediterrânica no mundo. Em menor escala, associa-se-lhe o galen espanhol que levou esta civilização a parte das Américas e do Pacífico.

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O termo nau nem sempre é aplicado com sentido específico nos documentos da época de que tratamos e boa parte das vezes equivale ao genérico navio. De modo geral, designa o navio de alto bordo, de aparelho redondo, e destinado ao comércio, e não raras vezes é qualificado por um termo adjetivo: nau de comércio, nau mercante, nau de guerra.

Os autores antigos dedicam sempre alguns capítulos das suas obras sobre construção naval à questão das madeiras, o que bem se compreende. Portugal era o único país, ao tempo, que usava madeira de sobro e de azinho para o cavername, por ser resistente à água e o sobreiro dar muitas curvas naturais, das usadas nesta construção para certas partes do navio. A quilha, a roda de proa, o cadaste e o forro das obras-vivas até aonde chegava a água eram de pinho resinoso. As obras-mortas onde não chegava água eram de pinho manso. Por vezes, aparece o carvalho e o castanho, usados nos dormentes e peças miúdas, e raramente no forro, por ser pouco resistente nos mares temperados e quentes. Também se usaram madeiras exóticas (teca, angelim), logo que começou a construção naval nas terras descobertas pelos portugueses, o que se deu muito cedo no século XVI.

O sobro provinha dos montados da Beira Baixa e sobretudo do Alentejo, cujo desbaste já nos meados do século XVI levantava receios e no início do século XVII a falta desta madeira era apontada como causa da má construção das naus, devido a que se usavam madeiras verdes e já não havia abundância das curvas naturais, o que obrigava a fazer curvas de várias peças. Pelo menos, desde D. João II que estava regulada a obrigação dos donos das matas fornecerem as madeiras para a construção naval. O corte também estava regulamentado e era o mestre carpinteiro com os seus oficiais que procedia à escolha das árvores. Havia preceitos sobre a época do ano e hora do dia do corte. Certas madeiras, como o pinho-de-flandres, usadas para antenas e mastros, eram importadas.

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Para se ter idéia do enorme desgaste sofrido pelos montados de sobro, basta dizer que uma nau de 17,5 R de quilha (26,95 m) exigia trinta e cinco chãos de caverna, setenta braços , cento e quarenta e cinco segundas aposturas, mais treze enchimentos de proa com vinte e seis hastes e vinte e um enchimentos de popa e picas, com quarenta e dois arrevezados, fora toda a outra madeira que não mencionamos. Cada chão de caverna necessitava duma tábua com pelo menos 8,10 m de comprimento por 0,50 m de largura e 0,30 m de grossura. Cada braço e cada apostura exigiam tábuas de pelo menos 2,00 m de comprimento por 0,50 m de largura e 0,20 m de grossura. Era sobretudo para as picas e enchimentos que se usavam as curvas naturais do sobreiro. Chegava-se ao extremo de deitar abaixo uma árvore para obter uma única curva.

As madeiras depois de preparadas eram cortadas segundo bitolas para cada tipo de peça e depois armazenadas nas taracenas.

Autoria: Alex Nogueira Brasil

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