Epitácio Pessoa assumindo a presidência em 1919, o país passa por um momentâneo alivio, pois além de seu prestigio de chefe da Missão a Conferencia da Paz, estava fora do esquema café com leite (São Paulo e Minas Gerais), trazendo esperança de uma política pacífica e independente. Devido à decisão de empossar civis nas pastas militares, cresceu a confiança de todos.
Os militares ficam descontentes com relação a civis nas suas pastas, acreditando que neste governo existia um antimilitarismo. A câmara e a imprensa se unem e numa critica as ações do presidente. Estes fatos serão acrescidos de outros, aumentando cada vez mais a oposição ao governo.
Foi neste contesto de turbulência na administração do país que surgiu um movimento de contestação ao governo e as oligarquias que comandavam o país denominado Tenentismo.
O movimento ficou conhecido assim porque teve como suas principais figuras oficiais de nível intermediário do Exército tenentes em primeiro lugar e capitães. O levante se deu de 1922 a 1927 e não arrastou a cúpula das Forças Armadas- o alto comando militar manteve-se alheio a uma ruptura pelas armas.
Há uma história do Tenentismo antes e depois de 1930. os dois períodos dividem-se por uma diferença essencial, antes de 1930, o tenentismo foi um movimento de rebeldia contra o governo da Republica, depois de 1930, os “tenentes” entram no governo e procuraram lhe dar um rumo que promovesse seus objetivos.
O primeiro ato de rebeldia foi à revolta do Forte de Copacabana ocorrida a 5 de julho de 1922. O clima de ofensas ao Exercito e a repressão contra o Clube Militar levaram os jovens Tenentes a se rebelar com um protesto destinado a “salvar a honra do Exercito”. Esta revolta ficou conhecida como os 18 do forte de Copacabana.
Dois anos depois , explodiu o chamado Segundo 5 de julho, em São Paulo. A data foi escolhida para homenagear o primeiro movimento, e o local pela importância do estado. A revolução de 1924 foi bem mais preparada, tendo como objetivo expresso derrubar o governo de Artur Bernardes. Nos anos 20, Bernardes personificou o ódio que os “tenentes” tinham da oligarquia dominante. Durante o ano de 1923, houve uma articulação de militares em torno de Nilo Peçanha, visto como possível líder de um novo movimento rebelde. Porém Nilo morreu no começo de 1924 e os conspiradores voltou-se para o nome do general reformado Isidoro Dias Lopes – um oficial gaúcho que se colocara ao lado dos federalistas, na época de Floriano. Isidoro foi líder ostensivo da revolta. Entre os oficiais mais atuantes, encontram-se os irmãos Távora (Juarez e Joaquim), Eduardo Gomes, Estilac Leal, João Cabanas, Miguel Costa. A presença de Miguel Costa – oficial de prestigio da Força Publica Paulista – trazia para os rebeldes o apoio de uma parte da milícia estadual.
Iniciado o movimento com a tomada de alguns quartéis , desenvolveu-se uma batalha pelo controle de São Paulo. Os choques foram marcados por uma grande desinformação de ambos os lados. A 9 de julho, quando os revolucionários se preparavam para abandonar a cidade, chegou a eles a notícia de que a sede do governo – os Campos Elíseos – estava vazia. De fato, o governador Carlos Campos, a conselho militar, saíra da cidade, instalando-se em seus arredores.
A presença dos Tenentes na capital paulista durou até o dia 27. no começo, a falta de gêneros alimentícios provocou vários saques de armazéns e do mercado municipal. Os “tenentes” entenderam-se com o prefeito e o presidente da Associação comercial, tentando assegurar o abastecimento e a normalidade da vida na cidade. Era difícil, entretanto alcançar este último objetivo, pois o governo empregou artilharia contra os rebeldes sem maior discriminação. Militares e civis foram atingidos e ocorreram sérios estragos materiais.
Afinal os revoltosos abandonaram a cidade a 27 de julho, deslocando-se pelo interior de São Paulo, em direção a Bauru. A manobra foi facilitada pela eclosão de revoltas tenentistas em cidades do interior. Essa foi à chamada “coluna paulista”, que se fixou no oeste do Paraná, em um lugarejo próximo à Foz do Iguaçu. Aí as tropas vindas de São Paulo enfrentaram os legalistas, à espera de uma outra coluna proveniente do Rio Grande do Sul. Neste estado, estourara uma revolta tenentista em outubro de 1924, na qual se destacaram os Tenentes João Alberto e o Capitão Luis Carlos Prestes. Ela contava com o apoio da oposição gaúcha ao PRR, mesclando assim o tenentismo com as divergências da política estadual. Depois de vários combates, os gaúchos se deslocaram em direção ao Paraná, indo ao encontro das forças paulistas. Eles se juntaram em abril de 1925, decidindo percorrer o Brasil para propagar a idéias de revolução e levantar a população contra as oligarquias.
Assim nasceu a Coluna Miguel Costa-Luís Carlos Prestes, que acabou ficando conhecida como Coluna Prestes. A coluna realizou uma incrível marcha pelo interior do país, percorrendo cerca de 24 mil quilômetros até fevereiro/março de 1927, quando seus remanescentes deram o movimento por terminado e se internaram na Bolívia e no Paraguai. Seus componentes nunca passaram de 1500 pessoas, oscilando muito com a entrada e saída de participantes transitórios. A Coluna evitou entrar em choque com forças militares ponderáveis, deslocando-se rapidamente de um ponto para outro. O apoio da população rural não passou de uma ilusão, e as possibilidades de êxito militar eram praticamente nulas. Entretanto, ela teve um efeito simbólico entre os setores da população urbana de insatisfeitos com a elite dirigente. Para esses setores, havia esperanças de mudar os destinos da República, como mostravam aqueles “heróis que corriam os riscos para salvar a nação”.
O que representou o tenentismo? Quais eram seus objetivos?
Para responder a essas questões devemos examinar o que passava no interior do Exército da sociedade. Nesse sentido, a primeira constatação importante é o fato de que a formação dos oficiais mudou muito desde os primeiros tempos da República. A Escola Militar da Praia Vermelha foi fechada definitivamente em 1904, quando ocorreu sua última revolta, e até 1911 o governo manteve apenas a Escola de Guerra de Porto Alegre. Nessa data, criou-se no Rio de Janeiro a Escola Militar do Realengo.
O propósito da escola não era o de formarem soldados-cidadãos, com o pé no Exército e o outro na sociedade civil e na política. Agora, tratava-se de formar soldados profissionais. O treinamento dos oficiais melhorou com a ida de três turmas à Alemanha, entre 1906 e 1910. Hermes da Fonseca era um entusiasta da organização militar alemã, tendo assistido às grandes manobras militares sob o comando do Chefe de Estado daquele país, em 1910. anos depois em 1920, a renovação do Exército se ampliou com a vinda da missão francesa. A Alemanha perdera a guerra e era inevitável a procura de um outro modelo. Viviam a contradição entre a formação militar moderna e a rotina e o atraso do Exército de então. O pretendido pelo governo com esta fachada de modernização e melhoramento profissional distanciá-los da política.
Uma das principais razões de queixa dos quadros intermediários do Exército residia na estrutura da carreira, que dificultava a ascensão aos postos mais altos. Além disso, os “tenentes” tinham desprezo por personagens da cúpula militar que haviam se associado aos figurões da República. Por exemplo, em seu livro À Guisa do Depoimento, escrito provavelmente em 1927, o tenente Juarez Távora atacava o ministro da Guerra Setembrino de Carvalho, acusando-o de exercer uma espécie de militarismo de encomenda “tacanho e porco”, explorando caprichos e fraquezas de Artur Bernardes. Desse modo os “tenentes” não queriam apenas purificar a sociedade, mas também a instituição de onde provinham.
Os tenentes agiram muito e falaram pouco. Os tenentes tinham a concepção de si mesmos como “salvadores da pátria”. De qualquer forma, a restrição de falar é um indício de que, nos anos 20, eles não tinham uma proposta clara de reformulação política. No fundo, pretendiam dotar o país de um poder centralizado, com o objetivo de educar o povo e seguir uma política vagamente nacionalista. Tratava-se de reconstruir o Estado para construir a nação. O grande mal das oligarquias – pensavam eles – consistia na fragmentação do Brasil, na sua transformação “em vinte feudos” cujos senhores escolhidos pela política dominante. Faziam restrições às eleições diretas, ao sufrágio universal, insinuando a crença em uma via autoritária para a reforma do Estado e da sociedade.
Desejavam uma reforma política e eleitoral, mas não estavam dispostos a representar e organizar. Preferiam a violência armada dos quartéis para tomada do poder e realização de mudanças. Os Tenentes tinham uma visão elitista com relação às massas: - se preocupavam com sua situação, mas não acreditavam em sua força para mudá-la.
Incluíram no programa outros pontos: a centralização política (não dizendo respeito à classe média); a defesa da nação, levou-os a proposta do tipo nacionalista, contra o capital estrangeiro, propondo a nacionalização de minas, ferrovias e até mesmo bancos.
Um grave problema estrutural era o fato das diferenças ideológicas entre os tenentes, nem mesmo o nacionalismo era consenso, não escapando de uma forte ambigüidade, sendo muitas vezes confundida com um romântico patriotismo.
É muito comum ouvir-se falar de que os tenentes foram os representantes da classe média urbana. Ela é explicável pela aparente analogia entre setores intermediários da sociedade e do Exército e pelo inegável prestigio do “tenentismo” na população urbana até o fim da década de 20. entretanto, considerar o “tenentismo” um movimento de classe seria uma simplificação de sua natureza. Do ponto de vista da origem social, os “tenentes” provinham em sua maioria de famílias militares ou de ramos empobrecidos de famílias de elite do nordeste. Muito poucos foram os recrutados entre a população urbana do Rio ou de São Paulo. Acima de tudo, devemos lembrar que os “tenentes” eram tenentes, ou seja, integrantes do Exército. Sua visão de mundo formou-se sobretudo por sua socialização no interior das Forças Armadas. Essa visão era específica deles, assim como as queixas contra a instituição de que faziam parte.
O seu universo ideológico é mais importante que sua origem de classe. As classes médias brasileiras nunca se organizaram em um poderoso movimento civil. Os setores altos dessa classe estavam ligados à burocracia e ao Estado, através do emprego. As camadas baixas dessa classe se confundiam com a plebe urbana participando de movimentos enfrentivos como o operariado que não tinha interesse em uma ação conjunta. O anarquismo indiferente ao nacionalismo, é um dos agentes desse afastamento.
Descontados alguns apoios, os “tenentes” acabaram enfrentando o governo praticamente sozinhos. Não conseguiram arrastar o Exército atrás de si. Nenhum setor ponderável da elite civil até 1930 mostrou-se disposto a jogar uma cartada tão radical. Radical não por seu conteúdo, mas por seu método: a confrontação armada.
A Aliança Liberal foi à única aliança sólida entre Tenentes e civis. Entraram como caudatários de uma oligarquia dissidente (os mesmos que combatiam). Seu principal líder Luís Carlos Prestes não participou por ter se convertido ao marxismo. Ironicamente quando os tenentes chegaram ao poder, 1930-1933, o Tenentismo não existia mais enquanto movimento.
Texto escrito pela Professora Patrícia Barboza da Silva licenciada pela Fundação Universidade Federal do Rio Grande – FURG.
Bibliografia:
CARONE, Edgard. A república nova, 1930-1937. São Paulo: Difusão Européia do Livro, 1974.
DRUMMOND, José Augusto. O movimento tenentista: A intervenção política dos oficiais jovens, 1922-1935. Rio de Janeiro: Edições Graal, 1986.
FAORO, Raymundo. (1985), Os Donos do Poder (6ª ed.). Porto Alegre, GLOBO.
Autoria: Patrícia Barboza da Silva