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Elementos da Narrativa

Em toda narração podem distinguir-se os seguintes elementos: o narrador (aquele que conta a história), as personagens, a ação ou série de acontecimentos narrados, o espaço e o tempo em que esses acontecimentos ocorrem.

Principais elementos da narrativa

  • O narrador é quem seleciona os fatos narrados e os apresenta de determinada maneira, de acordo com sua intenção. É ele também quem marca o tom da narração, a ordem dos fatos, caracteriza as personagens e dirige, em suma, o decurso da ação.
  • A ação constitui o enredo (ou trama narrativa), composto pelos fatos do modo como o narrador os apresenta.
  • As personagens são os seres reais ou fictícios que vivem os fatos narrados. Podem ser pessoas, animais ou objetos personificados. Classificam-se em principais e secundárias. Entre as principais, destacam-se o protagonista, aquele que conduz a ação, e o antagonista ou opositor, personagem que se opõe ao protagonista.
  • O espaço e o tempo da narração constituem o marco narrativo. Esse marco está sempre presente, embora, às vezes, o narrador deixe esses elementos da narrativa indeterminados.

O narrador e os tipos de narração

Nos textos narrativos, o autor conta os fatos por meio da voz do narrador. É o narrador que apresenta os fatos. Além disso, é ele que marca o tom da narração, ordena os acontecimentos, caracteriza as personagens e dirige o decurso da ação.

O narrador pode adotar dois pontos de vista e contar a história em primeira ou terceira pessoa, constituindo, assim, dois tipos de narração distintos:

  • Narração em primeira pessoa. Nesse caso, o narrador, chamado narrador-personagem, participa, como protagonista ou como testemunha, dos acontecimentos que narra. Exemplo:

Uma noite destas, vindo da cidade para o Engenho Novo, encontrei num trem da Central um rapaz aqui do bairro, que eu conheço de vista e de chapéu. Cumprimentou-me, sentou-se ao pé de mim, falou da lua e dos ministros, e acabou recitando-me versos. A viagem era curta, e os versos pode ser que não fossem inteiramente maus. Sucedeu, porém, que, como eu estava cansado, fechei os olhos três ou quatro vezes; tanto bastou para que ele interrompesse a leitura e metesse os versos no bolso.

Dom Casmurro, Machado de Assis,

Quando o narrador é simultaneamente o protagonista, tem-se o relato autobiográfico.

As memórias e o diário são exemplos de relatos autobiográficos. A autobiografia pode ser real, quando o autor narra sua própria vida, ou fictícia, quando apresenta o narrador como protagonista,

  • Narração em terceira pessoa. É o tipo mais comum de narração. Nesse caso o narrador não participa dos fatos que narra, apenas conta o que acontece às personagens, como no exemplo a seguir.

Dario vinha apressado, guarda-chuva no braço esquerdo e, assim que dobrou a esquina, diminuiu o passo até parar encostando-se à parede de uma casa. Por ela escorregando Sentou-se na calçada, ainda úmida de chuva, e descansou na pedra o cachimbo. Dois ou três passantes rodearam-no e indagaram se não se sentia bem. Dario abriu a boca, moveu os lábios não se ouviu resposta. O senhor gordo de branco, sugeriu que devia sofrer de ataque Ele reclinou-se mais um pouco, estendido agora na calçada, e o cachimbo tinha apagado.

Uma vela para Dario, Dalton Trevisan.

Em alguns casos, o narrador em terceira pessoa conhece tudo sobre suas personagens: o que fazem, sentem, pensam etc. Trata-se do narrador onisciente (onisciente significa “que sabe de tudo”). Exemplo:

Ficaram em silêncio. Angela Pralini entregou-se ao ruído cadenciado do trem. Dona Maria Rita olhou de novo para o próprio anel de brilhantes e pérola no seu dedo, alisou o camafeu de ouro: “Sou velha mas sou rica, mais rica que todos aqui no vagão. Sou rica, sou rica”. Espiou o relógio, mais para ver a grossa placa de ouro do que para ver as horas. “Sou muito rica, não sou uma velha qualquer” Mas sabia, ah bem sabia que era uma velhinha qualquer uma velhinha assustada pelas menores coisas. Lembrou-se de si, o dia inteiro sozinha na sua cadeira de balanço, sozinha com os criados, enquanto a filha passava o dia fora, só chegava às oito da noite, e nem sequer lhe dava um beijo. Acordara-se neste dia às cinco da manhã, tudo ainda escuro, fazia frio.

A partida do trem, Clarice Lispector.

Em outros casos, o narrador somente conta o que as personagens fazem ou dizem, sem entrar em seu interior. Trata-se do narrador observador. Exemplo:

Por volta de 1914, Galib inaugurou o restaurante Biblos no térreo da casa. O almoço era Servido às onze, comida simples, mas com Sabor raro. Ele mesmo, o viúvo Galib, cozinhava, ajudava a servir e cultivava a horta, cobrindo-a com um véu de tule para evitar o sol abrasador dor No Mercado Municipal escolhia uma pescada, um tucunaré ou um matrinxã, recheava-o com farofa e azeitonas assava-o no fomo de lenha e servia-o com molho de gergelim. Entrava na sala do restaurante com a bandeja equilibrada na palma da mão esquerda; a outra mão enlaçava a cintura de sua filha Zana, iam de mesa em mesa e Zana oferecia guaraná, água gasosa, vinho. O pai conversava em português com os clientes do restaurante mascateiros comandantes de embarcação, regatões, trabalhadores do Manaus Harbour.

Dois irmãos, Milton Hatoum.

Elementos da narrativa

A ação

O conjunto de acontecimentos narrados constitui a ação ou enredo. Esses acontecimentos se produzem em um lugar e em um tempo geralmente determinados. O narrador pode contar os fatos em uma ordem cronológica, como costuma ocorrer no conto, mas também pode romper essa ordem, antecipando eventos que ocorrerão mais tarde ou voltando no tempo para contar fatos passados.

O narrador pode contar os fatos à medida que eles ocorrem, do início ao fim, ou alterar-lhes a ordem, dando um salto temporal ao passado ou ao futuro. Desse modo, podem-se distinguir várias formas de ordenação temporal:

  • Desenvolvimento linear. A narração apresenta os acontecimentos em ordem cronológica, dos mais antigos aos mas recentes. Os contos tradicionais, por exemplo, costumam apresentar essa organização. personagem em lugares
  • Antecipação. E uma ruptura da ordem temporal que consiste em adiantar acontecimentos e anunciar fatos que ocorrerão mais tarde. No fragmento a seguir, o enunciado destacado constitui uma antecipação:

Em má hora o rei seguiu os conselhos de Hagen. Os valentes cavaleiros se apressaram a executar seu plano traiçoeiro sem descobrir nada. A discórdia entre as duas mulheres iria Causar a morte de mais de um herói.

A canção dos nibelungos, autor desconhecido.

  • Retrospectiva (ou flashback). É outra ruptura da ordem cronológica, que consiste em voltar no tempo (dar um salto para trás) com o objetivo de contar fatos anteriores ao momento em que se situa a história. É o que acontece, por exemplo, nos romances policiais, nos quais é frequente a narrativa começar com um crime para depois serem reconstruídos os acontecimentos que o precederam. A seguir há um exemplo de retrospectiva (ou flashback);

Cerca de duas horas antes da entrevista de que falamos no capítulo anterior despertava William Sikes, que acabava de terum sonho, e perguntava que horas eram.

Oliver Twist, Charles Dickens.

As personagens

As personagens são os seres que realizam a ação. O leitor conhece-os pela descrição que o narrador faz, por suas atitudes, pelo que fazem e dizem. Geralmente são pessoas, reais ou fictícias, mas também podem ser animais ou objetos personificados. Exemplo:

Parece que a agulha não disse nada, mas um alfinete, de cabeça grande e não menor experiência, murmurou à pobre agulha:
– Anda, aprende, tola. Cansas-te em abrir caminho para ela e ela é que vai gozar da vida enquanto aí ficas na caixinha de costura. Faze como eu, que não abro caminho para ninguém. Onde me espetam, fico.

“Um apólogo”, Machado de Assis.

  • Conforme sua importância no desenvolvimento da ação, as personagens podem ser principais ou secundárias. Entre as principais destacam-se o protagonista, que é quem realiza a ação, e o antagonista, que se opõe a ele.
  • Conforme o grau de profundidade psicológica com que se apresentam, as personagens classificam-se em planas ou redondas.

— As personagens planas não se modificam ao longo da obra e obedecem a um esquema de conduta prévio. As personagens dos contos tradicionais, por exemplo, costumam ser planas e com frequência encarnam uma virtude, um defeito ou uma característica.

— As personagens redondas possuem características individuais e evoluem com o decorrer do relato; são seres cuja complexidade psicológica as torna parecidas com as pessoas reais. As personagens mais importantes dos romances costumam ser desse tipo.

O tempo

Nos textos narrativos, a informação se organiza de acordo com uma ordem temporal. A narrativa pode mostrar os fatos refletindo fielmente a ordem em que ocorrem, de modo que se apresentem no início os acontecimentos mais remotos e, no final, os mais recentes. Nesse caso, diz-se que a narração apresenta um desenvolvimento linear. Os contos tradicionais costumam seguir essa organização. Exemplo:

Era uma vez um moleiro que com sua esposa, levava uma vida afortunada. Possuíam dinheiro e bens e sua propriedade aumentava de ano em ano. Porém o infortúnio vem da noite para o dia, pois assim como antes sua riqueza havia aumentado, agora diminuía de ano em ano, até que, no fim, o moleiro apenas pôde considerar como seu o moinho em que vivia.

Contos, Jacob Grimm e Wilhelm Grimm.

Para expressar o tempo na narração, empregam-se os tempos verbais e os indicadores de tempo:

  • Os tempos verbais. Como a narração tem por objetivo contar fatos reais ou fictícios, as palavras que expressam ações, isto é, os verbos, desempenham nela um papel fundamental. E, como geralmente os fatos contados já são passados, o habitual é que se encontrem nos textos narrativos verbos no pretérito, principalmente no pretérito perfeito do indicativo (esperou, demorou, compartilhou, inquietou) ou no pretérito imperfeito do indicativo (vivia, era, chegava, detestava).
  • Os indicadores de tempo. A passagem do tempo e a simultaneidade ou sucessão das ações também são marcadas por advérbios ou conjunções temporais (enquanto, então, antes, depois) e outras expressões que possuem um caráter temporal marcado (por fim, depois de um tempo, no dia seguinte). Exemplo:

Enquanto esperava seu amigo, Ana decidiu refugiar-se no portal. Em pouco tempo, viu que alguém se aproximava.

O espaço

Os acontecimentos da narração sempre se dão em algum lugar. Muitas vezes pode-se deduzir o lugar onde ocorre a ação sem a necessidade de que ele seja especificado pelo narrador. Exemplo:

A comissária tirava sua maleta agilmente quando, de repente, viu seu ex-marido ir para o portão de embarque.

No texto anterior, deduz-se que o lugar do encontro seja um aeroporto. Quando a localização não está indicada, por mais abstrata que seja, o leitor sempre pode recorrer à sua imaginação.

Para alguns autores, o espaço da narração tem grande importância. De fato, existem romances que fazem do espaço literário o protagonista da história. Por exemplo, em O cortiço, de Aluísio Azevedo, o cortiço é o lugar onde acontece a história, Trata-se de um espaço vivo que, personificado, adquire em vários momentos o papel de protagonista, representando um elemento importante, quando se interpreta o desenvolvimento da ação:

Eram cinco horas da manhã e o cortiço acordava, abrindo, não os olhos, mas a sua infinidade de portas e janelas alinhadas. Um acordar alegre e farto de quem dormiu de uma assentada sete horas de chumbo.

Por: Paulo Magno Torres