Artes

Ópera

Pertencente ao gênero musical dramático, a ópera é uma combinação de música e texto. Veja neste artigo as suas características, nascimento e desenvolvimento.

Características

A ópera é uma representação cênica de caráter lírico-dramático, onde se alternam recitativos, árias e intervenções orquestrais. O recitativo consiste em uma melodia cantada a meio caminho entre a fala e o canto, acompanhada, em geral, pelo baixo contínuo.

A ópera tem orientação dramática, e os personagens dialogam entre si. Cenários e cenografias exigem uma ambientação especial. Suas partes mais importantes são: a abertura (instrumental), os coros (conjuntos vocais), os interlúdios (instrumentais), as árias (vozes solistas) e, ocasionalmente, o balé.

Distinguem-se a ópera séria e a cômica da ópera bufa. As primeiras, de caráter aristocrático, extraíam seus temas da mitologia clássica, mas diferiam na condução do argumento, enquanto na ópera bufa os protagonistas eram personagens do dia-a-dia, cujas divertidas histórias eram reflexo da vida cotidiana.

Nascimento e desenvolvimento da ópera

A ópera começou em Florença, desenvolveu-se em Veneza e Roma e alcançou pleno êxito em Nápoles no final do século XVII.

A ópera em Florença

O Renascimento voltou o olhar à Antiguidade clássica, da qual restavam muitos vestígios de outras artes, mas não da música. Tentando imitar a tragédia grega, que reunia em si todos os elementos do teatro (poesia, música e dança), um grupo de humanistas que se reunia em Florença, ao final do século XVI, nos salões dos condes Bardi e Corsi, buscando um novo estilo em que, fundidas palavras e música, fosse produzida uma obra de maior expressão dramática.

Artistas e humanistas fundaram um movimento chamado de Camerato Fiorentina. A primeira consequência foi o nascimento do recitativo melódico, espécie de cantilena que seguia os acentos do texto, acompanhada pelo baixo contínuo e interrompida pelo coro.

Vincenzo Galilei (c. 1520-1591), pai do astrônomo Galileu, compôs e interpretou com sucesso ele mesmo uma cena dramática baseada no lamento de Ugolino da Divina Comédia – famoso livro do poeta italiano Dante Alighieri (1265-1321). Estimulado pelo êxito, o conde Bardi encarregou ao dramaturgo Ottavio Rinuccini (1562-1621) e aos músicos Jacopo Peri (1561-1633) e Giulio Caccini (c. 1550-1618) que escrevessem obras no novo estilo. Assim nasceu a ópera Dafne, representada durante o carnaval de 1597 no Palácio Corsi, cuja música se perdeu.

Três anos mais tarde, durante as festas celebradas pelas bodas de Maria de Médici com Henrique IV da França, estreou no Palácio Pitti a ópera Eurídice, a primeira que ainda se conserva na íntegra; o texto foi escrito por Rinuccini e a música composta por Peri, com alguns coros de Caccini.

O passo seguinte ao recitativo melódico surgiu da necessidade de que as vozes solistas interpretassem fragmentos musicais mais densos, com maior soltura melódica e ligeiro acompanhamento instrumental. Apareceu dessa forma a ária, composição independente para voz solista, geralmente com acompanhamento, de caráter lírico, na qual o intérprete desenvolve suas melhores qualidades expressivas.

A ópera em Roma

Os experimentos da Camerata Florentina estenderam-se rapidamente e com força por toda a Itália. No mesmo ano em que se representava Eurídice em Florença, foi apresentada em Roma uma espécie de ópera com enredo sacro, que levava o título de Rappresentatione di Anima, et di Corpo, de Emilio de Cavalieri (c. 1550-1602).

Em Roma, músicos da grandeza de Stefano Landi (c. 1590-1639), autor do drama sacro San Alessio, Filippo Vitali (c. 1590-1653), que compôs L’Aretusa, Domenico Mazzocchi 1592-1665, a quem se deve Catena di Adone, e Luigi Rossi (c. 1597-1653), com Orfeu, escreveram novas óperas nas quais, devido à tradição polifônica da cidade, deu-se maior importância aos coros e à orquestra. A encenação se tomou mais luxuosa e introduziu-se um personagem cômico – nascia a ópera cômica.

Dois cardeais, Barberini (1597-1679) e Rospigliosi (1600-1669), foram os protetores da ópera em Roma e também os que permitiram a chegada da ópera cômica. Em 1634, Barberini escreveu um libreto com achados divertidos e Rospigliosi, que pode ser considerado o criador da ópera cômica na Itália, escreveu o libreto de Chi Soffre, Sperí (1637).

A ópera decaiu durante o pontificado de Inocêncio X (1644-1655).

Encenação de uma ópera em uma teatro romano.
Esboço de Francesco Bataglioli (1725-1795) para uma ópera barroca interpretada por Farinelli.

A ópera em Veneza

Em meados do século XVII, Veneza foi o foco mais importante da ópera na península italiana e continuadora da etapa romana. As óperas seguiram tendo como argumento temas gregos e mitológicos; decresceu a importância dos coros; o cantor e a ária alcançaram grande prestígio, e surgiram as introduções instrumentais, conhecidas como “aberturas”.

O grande mestre da escola veneziana foi Claudio Monteverdi (1567-1643), que viveu em Mântua e em Veneza, onde compôs grande parte de sua obra operística. Foi ele quem deu à ópera o impulso de que necessitava para alcançar verdadeiro crescimento. Separou-se da ópera florentina e concedeu maior importância à orquestra, buscando um timbre mais adequado à expressão cênica, utilizando harmonias mais audazes e inovadoras. Em Mântua, estreou a primeira ópera de fama duradoura, Orfeu (1607), e um ano depois compôs uma nova ópera, Arianna.

Em 1613, Monteverdi instalou-se em Veneza. Sua obra fez-se mais realista, sua temática foi mais histórica que mitológica, suas linhas melódicas ficaram cada vez mais interessantes e teria ele até recorrido a temas populares.

A abertura do primeiro teatro público de ópera em 1637, o São Cassiano, fez com que ficassem conhecidas suas óperas mais importantes: II Ritorno d’Ulisse In Patria (1640) e L’incoronazione da Poppea (1642).

Outros dois importantes compositores da ópera veneziana foram Cavalli e Cesti. Francesco Cavalli (1602-1676) foi um compositor aristocrático, que tratou de temas da mitologia antiga e da história romana e oriental, buscou o equilíbrio entre o texto e a música e tratou de evitar o uso dos coros. Foi-lhe encomendada a composição da ópera Ercole amante (1662), em razão do casamento de Luís XIV. Sua ópera mais popular, Egisto (1643), estreou em Paris.

Antonio Cesti (1623-1669) estreou em Viena com II pomo d’oro (1668), famosa ópera de gala do casamento do imperador Leopoldo I com Margarita da Espanha. Cesti foi considerado um artista popular, com abundância de coros em suas obras e com recitativos de grande colorido.

Teatro de Veneza.
Interior do teatro da Ópera de La Fenice, Veneza, século XVIII.

A ópera em Nápoles

A ópera nasceu em Florença, enriqueceu-se em Veneza e Roma e alcançou o máximo esplendor em Nápoles, onde adquiriu características próprias: as da ópera napolitana.

Em Nápoles, o chamado bel canto encontrou forma definitiva, o que gerou um grande desenvolvimento da técnica vocal. Por outro lado, o cantor buscava seu brilho pessoal e a música ficava subordinada a seus caprichos.

O principal representante da ópera napolitana foi o siciliano Alessandro Scarlatti (1660-1725). Encontrou seu próprio estilo com a obra Pirro e Demetrio (1 694). A ele se atribui o aperfeiçoamento da ária, a tal ponto que a ária da capo substituiu todas as demais (escrita na forma A-B-A, em que, após um trecho intermediário, repete-se a primeira parte desde o princípio, do copo, adornando-a com algumas coloraturas, nas quais o cantor demonstra sua técnica e sua criatividade. Compôs mais de cem óperas, como Mitrídates Eupátor (1707), Telêmaco (1718) e Griselda (1721).

A Giovanni Battista Pergolesi (1710-1736) cabe o mérito de haver desenvolvido e dado maturidade à ópera bufa. Apesar do sucesso obtido, não se conseguiu tirar a ópera séria do lugar que esta ocupava no apreço popular. Sua obra La serva padrona (1733), com três figuras e poucos adereços, foi seu maior sucesso e conquistaria o mundo. Representada em Paris, foi o estopim da Querelle des bouffons, episódio em que se enfrentaram os partidários da ópera italiana e da francesa.

Tanto ou mais êxito que a própria ópera tiveram os entreatos que, como era costume, intercalavam-se durante a representação.

A ópera bufa napolitana

No século XVIII, Nápoles criou a ópera bufa como reação ante a falta de comicidade que se fazia sentir nos libretos de Apostolo Zeno (1668-1750) e Pietro Metastasio (1698-1782).

Ópera bufa não é o mesmo que ópera cômica. Esta última, desde Chi Soffre, Speri (Virgílio Mazzocchi – 1597-1646, com libreto do cardeal Rospigliosi) em diante, apenas se diferenciava da ópera séria na natureza do argumento; na ópera bufa, entretanto, os personagens eram poucos (normalmente só dois) e eram ligados, como a trama, à vida cotidiana. Nela só eram utilizadas vozes naturais (nenhum castrato) e as árias – algumas vezes remanescentes das canções folclóricas – iam desde canções ritmadas até cantilenas sentimentais, além de não terem o objetivo de alcançar um “clima emocional”. Em sua forma, eram mais livres e mais limitadas harmonicamente. As palavras eram expressas de maneira natural, simples, melodiosamente.

Era dada maior importância aos concertantes (trechos musicais com coro e instrumentos), especialmente nos finais de ato. Tudo, em uma palavra, era mais natural, menos artificial que na ópera séria, ainda que se parecessem na estrutura dos recitativos, árias e textura homófona.

A ópera bufa originou-se nos intermezzi do século XVII que, como os intermezzi do Renascimento, eram espetáculos leves, intercalados entre os diversos atos de uma obra séria, nesse caso a ópera.

Referência:

A. Harman, in. História da música: Renascença e Barroco, volume II, vários autores, dirigida por Alec Robertson e Denis Stevens, Ulisseia, Lisboa, i 963.

Por: Wilson Teixeira Moutinho

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