Artes

Renascimento

Renascimento é o resultado das transformações no alvorecer do Mundo Moderno. A renascença, tomada do ângulo das ideias e atitudes que a caracterizam, é considerada como o período em que florescem os fundamentos da Modernidade. 

Foi um movimento diretamente associado às condições históricas de um novo mundo em ascensão e outro em dissolução.

O termo “Renascimento” foi criado pelos filósofos e artistas da Idade Moderna, que se referiam ao Período Medieval como a “Idade das Trevas”. Atualmente, no entanto, essa denominação é vista como equivocada, pois a Idade Média foi um período de grande produção cultural. Alguns especialistas, inclusive, entendem que houve “vários renascimentos” na Era Medieval, por exemplo, durante o reinado de Carlos Magno.

Origens do Renascimento

A Península Itálica é considerada o berço do movimento renascentista. Porém, alguns historiadores questionam a visão dicotômica sobre o Renascimento ter ocorrido primeiramente na Itália e, como consequência, em outros países.

Peter Burke, historiador inglês, argumenta que essa visão tradicional está equivocada e exemplifica que, com exceção da cidade de Florença, a região da Toscana, de forma geral, não era diferente do restante da Europa. Além disso, explica que a técnica de pintura a óleo surgiu nos Países Baixos e foi importada pelos italianos, demonstrando a simultaneidade dos eventos que marcaram as inovações que o movimento trouxe.

Entretanto, é fato que cidades como Veneza, Gênova, Florença, Pisa e Roma destacaram-se, pois, em razão da localização privilegiada da Península Itálica, banhada pelo Mar Mediterrâneo, enriqueceram-se com o desenvolvimento comercial advindo com a Quarta Cruzada ou Cruzada Veneziana, que passou a abastecer o mercado europeu com produtos orientais: especiarias, sedas, porcelanas, tecidos finos, entre outros.

As famílias enriquecidas, os nobres e o alto clero (bispos, cardeais, papas) tornaram-se mecenas, isto é, benfeitores das artes, patrocinando e financiando artistas e intelectuais. Ao mesmo tempo, providenciavam novos palácios, novas comodidades e novas atitudes que expressavam a visão de mundo que se expandia.

Os comerciantes, pela necessidade de justificar seu estilo de vida e impor sua visão de mundo com base no dinheiro e na ideia de comer, vestir, enfim, viver bem, patrocinavam, financiavam e protegiam artistas, encomendando-lhes palácios, joias, esculturas, quadros, retratos, para mostrar a todos o seu poder.

Em 1453, ocorreu um novo fato, que incrementou ainda mais o processo de renovação artística pelo qual a Europa estava passando: o Império Bizantino caiu nas mãos dos turco-otomanos, provocando a fuga de muitos sábios bizantinos para a Itália, os quais levaram as obras clássicas que haviam sido preservadas em Constantinopla.

Além disso, a Itália havia sido o berço do Império Romano na Antiguidade e ainda preservava vários monumentos da cultura greco-romana, os quais serviram de inspiração aos artistas renascentistas.

Características do Renascimento

O Renascimento não foi um acontecimento isolado. Ele faz parte de uma ampla gama de transformações culturais, econômicas, sociais, políticas e religiosas que caracterizaram a transição do feudalismo para o capitalismo. Nesse sentido, o Renascimento pode ser entendido como um elemento de ruptura, no plano cultural, com a estrutura medieval.

O Renascimento provocou uma profunda transformação nas artes e no pensamento europeu. Uma importante característica desse movimento foi a laicização da cultura, ou seja, a Igreja, a grande detentora do poder durante a Idade Média que deixou de monopolizar as normas artísticas. O ser humano tornou-se, assim, o centro do Universo e das explicações, característica denominada como antropocentrismo.

A sociedade medieval, com base no coletivismo e na esperança da salvação eterna, teve de aceitar o florescimento de uma nova concepção centrada no individualismo, estruturado na capacidade que cada indivíduo tem.

Além disso, os renascentistas buscavam retratar em suas obras a aparência daquilo que os rodeava, característica que alguns especialistas chamaram de realismo. A esse fato, encontra-se ligada a descoberta da perspectiva linear, técnica muito utilizada pelos pintores do movimento, criada pelo arquiteto Filippo Brunelleschi.

O humanismo renascentista

Como manifestação de uma nova visão de mundo, o Renascimento deslocou o centro de interesses do plano religioso, típico da Idade Média, para o campo profano ou secular (isto é, fora do âmbito da Igreja). Os renascentistas voltaram sua atenção para o mundo e para a realidade humana, não mais se atendo apenas ao sobrenatural e ao divino.

O novo enfoque estava ligado ao humanismo, que, embora fosse um termo utilizado originalmente para designar o conhecimento de Humanidades (disciplinas ligadas à Antiguidade Clássica), frequentemente é interpretado como o estudo e a glorificação do ser humano.

O humanismo foi o veículo por meio do qual os renascentistas tomaram consciência de seu tempo. E, por constituir a parte essencialmente intelectual do Renascimento, o humanismo se tomou um de seus mais importantes elementos definidores.

Homem vitruviano, desenho que Leonardo da Vinci fez inspirado no arquiteto romano Marcos Vitrúvio Polião, que viveu ao longo do século I a.C.

Renascimento artístico

Os artistas e intelectuais europeus consideravam a arte renascentista italiana um modelo ideal a ser seguido. Influenciados pelos novos elementos estéticos, viajavam constantemente às cidades italianas — transformadas em grandes centros culturais —, onde permaneciam.

Pintura

No Renascimento italiano, distinguem-se dois períodos: o Quatrocento, ou período quatrocentista (século XV), tendo Florença como centro cultural, e o Cinquecento, ou período quinhentista (século XVI), com Roma e Veneza como focos artísticos.

No período quatrocentista, destacam-se os quadros naturalistas e equilibrados de Masaccio, Fra Angelico e o estilo elegante de Sandro Botticelli, que entre suas obras mais importantes, estão os quadros A primavera e O nascimento de Vênus. Além disso, ele ainda trabalhou nas paredes laterais da Capela Sistina, no Vaticano, retratando em afrescos a vida de Cristo e de Moisés.

O período quinhentista teve três grandes pintores: Leonardo da Vinci, Michelangelo e Rafael. Leonardo ao longo de sua vida, realizou uma grande produção artística, sendo suas obras mais famosas a Gioconda (Mona Lisa), Virgem das Rochas, e o mural Última Ceia (Santa Ceia).

BUONAROTTI, Michelangelo. Pietà. 1498-1499. Escultura em mármore. Basílica de São Pedro, Vaticano, Itália.

Rafael Sanzio (1483-1520), por sua vez, é considerado o pintor que melhor desenvolveu, na Renascença, os ideais de harmonia e regularidade de formas e de cores. A obra A Virgem de Alba é um exemplo.

Michelangelo se tornou famoso ao pintar os afrescos no teto da Capela Sistina, localizada no Vaticano, em Roma. O artista retratou cenas bíblicas, como Criação de Adão, Criação de Eva, A queda, O dilúvio e Juízo Final.

No resto da Europa destaca-se a escola flamenga, liderada por Pieter Brueghel, o Velho. Outros grandes pintores foram o alemão Albrecht Dürer e, na Espanha, El Greco.

Escultura

A escultura renascentista nasceu em Florença, inspirada nas obras clássicas.

No período quatrocentista, os escultores demonstram preferência pelo Realismo e pela individualização das figuras. Seu mestre é o florentino Donatello. Andrea del Verrocchio, seu discípulo, deu prosseguimento à tradição naturalista. Sua estátua do condottiero Bartolomeo Colleoni, situada em Veneza, é o principal monumento equestre do Quatrocento.

No período quinhentista, a escultura tende a copiar as obras clássicas, sublimando-as e mostrando a nudez do corpo humano. São dessa época o Davi, a Pietá e o Moisés, de Michelangelo.

BUONAROTTI, Michelangelo. Pietà. 1498-1499. Escultura em mármore. Basílica de São Pedro, Vaticano, Itália.

Renascimento científico

A nova ciência baseava-se na razão e na experimentação. O lema científico da época era “ver para crer”. Se antes a ciência buscava o significado e a certeza nas obras dos antigos, a doutrina renascentista passou a buscar a exatidão mediante a observação.

Em anatomia, por exemplo, o costume cristão vigente até a época proibia a dissecação do corpo humano. Entretanto, André Vesálio passou a fazer dissecações de cadáveres, acompanhando seus trabalhos com gráficos e desenhos mostrando as veias, as artérias e o sistema nervoso.

Outro destacado médico, Miguel Servet, deu grande impulso ao descobrimento da circulação do sangue. Entretanto, sua crítica à interpretação bíblica da divindade de Cristo fez com que fosse acusado de heresia. O próprio Calvino o denunciou e, em 1553, Servet foi queimado na fogueira.

Os trabalhos astronômicos de Copérnico, que colocavam o Sol, e não a Terra, no centro do universo, provocaram uma revolução sem precedentes na astronomia e na ciência em geral. Essa teoria foi depois confirmada pelos trabalhos de Kepler e as observações de Galileu. Iniciou-se, assim, uma batalha entre a ciência e a religião que durou mais de um século, até o triunfo indiscutível dos partidários da Teoria Heliocêntrica, ou seja, os que afirmavam que o Sol é o centro do universo.

Renascimento literário e filosófico

As ideias humanistas e toda a cultura do Renascimento tiveram uma notável expansão graças à invenção da imprensa. Durante a Idade Média, os livros eram copiados à mão sobre pergaminho e destinavam-se apenas aos eruditos. A cultura, no período medieval, tratou-se de um fator de distinção social. Somente quando ocorreu o desenvolvimento da imprensa foi possível produzir muitos exemplares da mesma obra, atingindo assim um número muito maior de leitores.

Veja os grandes nomes da literatura Renascentista:

Erasmo de Roterdã

Foi o mais destacado humanista do Norte europeu. Como intelectual, ironizou tanto o dogma católico como o protestante (criticou publicamente Lutero). Entre suas obras, escritas em latim, destaca-se o livro Elogio da loucura (1509), que defendia a tolerância e a liberdade de pensamento, além de denunciar algumas ações da Igreja e a imoralidade do clero. Elaborou, também, uma edição do Novo Testamento baseada nas versões grega e latina.

Thomas Morus

A obra que inscreveu Morus na história foi Utopia, na qual ele descreve uma sociedade ideal em que todos trabalham e vivem felizes, sem miséria e exploração, condenando o desejo por poder e ganância. Utopia significa literalmente “lugar nenhum”, mas, atualmente, o termo tem significado de sonho, ilusão.

Maquiavel

Nicolau Maquiavel nasceu em Florença, em 1469. Foi um dos mais destacados teóricos do Absolutismo, afirmando que o governante deveria sempre agir à margem da moral. Escreveu a obra O Príncipe, na qual afirma que o governante ideal deve organizar um poder absoluto que elimine a corrupção e as lutas internas do Estado. Para isso, recomendava qualquer procedimento, incluindo a mentira e a violência.

Miguel de Cervantes

Autor de D. Quixote, obra em que a sátira e o grotesco se concentram na luta contra a sobrevivência dos ideais medievais, perseguidos pelo protagonista. Enquanto a cavalaria mostra-se irreal e decadente, o pragmatismo e o racionalismo mordaz de Sancho Pança associam-se ao capitalismo; os dois personagens, o cavaleiro e seu armador, vinculam-se à consciência de Cervantes frente à transição do feudalismo para o capitalismo.

Luís de Camões

Autor de vastíssimo trabalho escrito em forma de sonetos, odes, elegias, sátiras e comédias. Sua obra máxima foi o poema épico Os Lusíadas, que narra a viagem de Vasco da Gama às índias, transformada numa epopeia nacional, o herói é uma entidade abstrata e Portugal é visto coletivamente na exaltação do “peito ilustre lusitano”.

William Shakespeare

Autor de comédias e sonetos, destacou-se, entretanto, nas tragédias, que constituem a parte mais importante da sua vastíssima obra. Exaltando heróis, personalidades importantes, reis, príncipes, generais, políticos e governantes, as tragédias enfoca principalmente a decadência a que são arrastados, e que culmina com a morte.

Shakespeare alcançou a plena maturidade literária em Hamlet, obra pessimista, crítica, de profunda análise psicologia, retratando as paixões na crueza da realidade. O autor criou personagens imortais, tão reais que se tornaram arquétipos do comportamento humano: Romeu e Julieta, Otelo, Macbeth, rei Lear, Tito Andrônico, Júlio César e Coriolano.

Por: Wilson Teixeira Moutinho

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