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Fordlândia: uma cidade norte-americana na Amazônia

A fim de expandir seus negócios, o engenheiro Henry Ford, fundador da empresa automobilística Ford Motor Company e idealizador da linha de produção em massa no segmento de automóveis particulares, ousou ao criar uma cidade nos modelos norte-americanos no meio da Amazônia brasileira, a Fordlândia.

O fordismo e a expansão do capitalismo

Desde muito jovem, Henry Ford desenvolveu o gosto pela engenharia automobilística: trabalhava na fazenda de seu pai fazendo a manutenção dos tratores. No ano de 1863, produziu seu primeiro automóvel. Seu grande diferencial na indústria automobilística ocorreu quando percebeu que seria mais barato e rápido fabricar modelos de automóveis padronizados. Com isso, criou o conceito de produção em massa, mais conhecido como fordismo.

Em uma esteira de montagem, eram distribuídas funções específicas aos operários, cada um sendo responsável por apenas uma etapa, como o encaixe de uma dada peça do automóvel. Isso evitava que os funcionários conhecessem o protótipo total, que era mantido sob sigilo. Com base nesse modelo de produção, um carro poderia ser produzido em até 98 minutos, o que otimizou a expansão rápida de seus negócios e constituiu-se como um marco na expansão dos moldes de produção capitalista.

O projeto de criação de uma cidade norte-americana na Amazônia

O ciclo da borracha já havia declinado no Brasil com o contrabando das sementes de seringueira pelos britânicos, que passaram a cultivá-la no sudeste da Ásia. Mas Ford não queria depender da borracha dos ingleses, por isso decidiu apostar no lar da Hevea brasiliensis, a seringueira amazônica, e construir sua própria fábrica de borracha.

Por meio de um acordo feito com o governo brasileiro, Ford recebeu as terras para poder extrair todo o látex que quisesse, sem precisar pagar taxas de exportação. Em pouco tempo, a cidade estava pronta: possuía eletricidade, saneamento, escolas, clubes e até o primeiro hospital do Brasil a fazer transplante de pele. Tinha tudo para dar certo, não fossem alguns problemas inesperados.

A cidade fantasma de Fordlândia

O solo em que Ford queria plantar as seringueiras era pobre e pedregoso. Além disso, os gerentes norte-americanos não tinham nenhum conhecimento sobre agricultura tropical, o que resultou no plantio incorreto das seringueiras. Plantadas muito próximas umas das outras, essas árvores ficam mais suscetíveis às pragas urbanas. Em pouco tempo, toda a plantação estava contaminada.

Outra questão conflituosa que surgiu foi em relação aos hábitos culturais dos trabalhadores. Ford queria impor o modo de vida norte-americano, fornecendo pasta de amendoim no café da manhã e hambúrgueres no almoço. O uso de crachá e uniforme era obrigatório e, nem mesmo nas festas, a bebida alcoólica era permitida. Essa imposição gerou baixa produtividade e intensos atritos. O estopim foi em 1930, quando os trabalhadores revoltaram-se contra a forma truculenta usada pelos gerentes e resolveram atacar. A levante foi tão grande que os norte-americanos precisaram se esconder na mata até o exército brasileiro intervir.

Foto tirada em uma fábrica abandonada na Fordlândia.
Modelo norte-americano de torre de água, em Fordlândia.

O projeto idealizado, ao ser colocado em prática, não obteve sucesso e, após o falecimento de Henry Ford, seu neto resolveu encerrar as atividades em Fordlândia, retornando aos EUA com um prejuízo de mais de vinte milhões de dólares. O governo brasileiro foi obrigado, por um decreto, a assumir a responsabilidade em relação aos trabalhadores remanescentes e indenizar a Ford Motor Company.

Mesmo com o fim do projeto, muitos moradores decidiram continuar morando em Fordlândia, haja vista a infraestrutura que a cidade possuía. A economia da cidade passou a girar em torno da agropecuária, do extrativismo e da pesca.

Embora seja chamada de cidade fantasma, Fordlândia conta com moradores fixos e permanentes até os dias de hoje. Mesmo que a vida tenha seguido outros rumos e a cidade tenha se reinventado, as ruínas não deixam esquecer o empreendimento fracassado do passado.

Por: Wilson Teixeira Moutinho

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