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Sócrates

Sócrates (470-399 a.C.) é considerado um pensador fundamental na tradição filosófica ocidental, sendo que alguns estudiosos entendem que sua atitude investigativa representa o verdadeiro início da história da filosofia. Essa repercussão da proposta filosófica socrática se explica pelo aprofundamento dos problemas antropológicos em suas reflexões e por sua dedicação ao delineamento de um método adequado para atingir o conhecimento.

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Assim como os sofistas, Sócrates descarta as narrativas cosmológicas dos primeiros filósofos. De acordo com seu ponto de vista, as teses dos pré-socráticos anulam-se reciprocamente e não oferecem verdadeiros princípios explicativos da realidade. Além disso, ignoram aquela que deveria ser a ver- dadeira tarefa da filosofia: o exame da vida humana.

O projeto filosófico socrático não se circunscreve no desenvolvimento de habilidades discursivas, como fazem os sofistas. Pretende, isto sim, superar a multiplicidade de opiniões por verdades racionalmente identificadas, explicitando a natureza humana e a finalidade da existência dos seres humanos. A filosofia, para Sócrates, tem a meta de conquistar a autonomia moral do ser humano, fundada no autêntico conhecimento da humanidade.

O que sabemos sobre Sócrates?

É importante assinalar o problema da historicidade de Sócrates. Dos pré-socráticos e dos sofistas restam fragmentos de textos que, estudados conjuntamente aos comentários de outros filósofos sobre o seu pensamento – as menções realizadas por Platão e Aristóteles, por exemplo –, permitem a reconstituição de seus discursos filosóficos.

Retrato de Sócates.
Sócrates

Em relação a Sócrates, a situação é diferente, pois esse filósofo dedica-se exclusivamente à oralidade filosófica, sem registrar sequer uma linha escrita de seu pensamento. O acesso à sua filosofia é indireto, feito apenas por textos de autores que versam sobre Sócrates e sua proposta filosófica.

Nosso conhecimento a respeito de Sócrates é proveniente especialmente dos testemunhos de seus contemporâneos, Aristófanes, Xenofonte e Platão.

Aristófanes (447- -385 a.C.) é um autor teatral grego, que transforma Sócrates em personagem central de sua comédia As nuvens. Nesse texto, Sócrates é representado como um misto de filósofo da physis e de sofista, no sentido pejorativo da expressão: ele especula sobre o cosmos e ensina a converter o pior argumento na melhor solução para uma questão.

Xenofonte (430-355 a.C.) apresenta-se como discípulo de Sócrates e retrata-o em seus escritos, como no texto denominado Memoráveis. Oferece-nos, contudo, a imagem de um filósofo plenamente resignado às convenções de sua sociedade, intensamente submetido à moralidade prevalecente entre os atenienses. Aceitar essa imagem torna difícil a compreensão das razões pelas quais a postura filosófica socrática perturbou a sociedade de Atenas.

Platão (427-347 a.C.) é o autor que, em seu conjunto de escritos, apresenta a atividade filosófica de Sócrates em sua fecundidade e prodigalidade, relatando minuciosamente o método socrático e o viés ético de sua filosofia.

Método socrático

A compreensão do método socrático requer a menção ao episódio em que a sacerdotisa do Oráculo de Delfos declara que Sócrates é o mais sábio entre os seres humanos. Considerando-se um ignorante, Sócrates é arrebatado pela perplexidade com essa revelação. Intensifica, então, seus contatos com poetas, políticos, artesãos, enfim, com seres humanos que, supostamente, possuem conhecimentos reais e desfrutam da reputação de sábios na sociedade.

Conclui, com base nesses contatos, que o conhecimento desses sábios é apenas aparente, posto que se julgam portadores de saberes que, de fato, não possuem. Os pretensos sábios são, portanto, duplamente ignorantes: nada sabem e desconhecem a própria ignorância. Então, o motivo pelo qual se afirma a superioridade de Sócrates é o fato de que ele é ciente de sua ignorância, pois sabe que nada sabe.

A informação de que a atividade filosófica de Sócrates é, em certo sentido, estimulada por uma espécie de revelação religiosa pode parecer incongruente com o fato de o pensamento filosófico grego se consolidar, em larga medida, por seu distanciamento em relação à religião. Devemos, entretanto, observar que a ruptura da filosofia helênica com a religião não é absoluta e, ainda que os filósofos se afastem da simples crença religiosa, eles permanecem, em muitos casos, pelo menos parcialmente receptivos à influência de uma cultura marcada pela religiosidade.

O reconhecimento da ignorância é o ponto de partida do método especulativo de Sócrates, a precondição da aspiração ao saber. Evidentemente, a máxima socrática “só sei que nada sei” não se estende a todos os aspectos da realidade. Reporta-se a questões filosóficas fundamentais, quanto ao discernimento da finalidade da vida humana e ao discernimento dos valores morais universais. Sócrates tem ciência, por exemplo, de que é um homem e um cidadão ateniense.

Alguns historiadores da filosofia interpretam a proclamada ignorância socrática unicamente como um artifício investigativo para a remoção dos falsos saberes e a definição do itinerário filosófico na busca pela verdade. Seja essa ignorância inicial uma declaração sincera ou somente um recurso metodológico, é a partir dela que esse filósofo desenvolve seu método.

Sócrates compreende seu método como um expediente intelectual que pode ser utilizado por todos os homens em seu percurso para o conhecimento e considera o conhecimento acerca da humanidade como o objetivo essencial da atividade filosófica, sucintamente indicado na frase “conhece-te a ti mesmo”.

Esse método é denominado de dialético ou dialógico e, em linhas gerais, consiste em um diálogo composto por sucessivas interrogações, sistematicamente conduzidas, sobre uma temática específica, com o propósito de gradual eliminação das hipóteses que não resistem à inquirição racional e de construção de um conhecimento definitivo, um conceito do tema em questão.

Esse método dialético é formado por dois momentos, a exortação (protréptico) e a indagação (elenkhos). Sócrates, distintamente dos sofistas, não ministra longas preleções para uma plateia atenta. De forma coerente com sua reconhecida ignorância, ele convida, exorta um interlocutor a apresentar sua definição sobre um tema, por exemplo, coragem, virtude, justiça. Com a exortação, o interlocutor discorre sobre o tema proposto, expondo fluentemente seu presumido conhecimento acerca do assunto.

Após essa exposição, inicia-se o segundo momento do método socrático, subdividido em ironia e maiêutica.

A ironia inicia-se com o aparente acolhimento socrático da explicação apresentada, seguida pela introdução de questões expostas por Sócrates, uma sequência encadeada de indagações, cujo exame, expresso em comentários críticos, incide na revelação da fragilidade da tese declarada pelo interlocutor. Realiza-se, assim, a refutação, consentida racionalmente por todos os participantes do diálogo, da definição proposta de início, havendo a constatação de que o pretenso saber do interlocutor nada é além de uma opinião distante da verdade. Dessa forma, exortação e ironia conjugam-se na eliminação de um falso conhecimento e, com a supressão do saber equivocadamente suposto, estão todos prontos para se lançarem em direção ao verdadeiro conhecimento. Esse percurso dialógico para a verdade é denominado de maiêutica, parto de ideias.

O método dialógico é concebido por Sócrates como o empreendimento necessário à identificação racional de um propósito para a vida humana e à consequente conquista da autonomia moral pelos seres humanos. Esse filósofo vincula a felicidade ao aperfeiçoamento da alma, aprimoramento este que se realiza pelo conhecimento. Em alguns dos diálogos especificamente socráticos de Platão, Sócrates diferencia os bens da alma dos bens do corpo e dos bens exteriores.

A ética e moral em Sócrates

Identidade entre virtude e conhecimento, ignorância como motivo do mal e unidade das virtudes são aspectos centrais na proposta ética socrática. Para Sócrates, o saber é condição necessária e suficiente da vida virtuosa, pois conhecimento da virtude proporciona o paradigma dos comportamentos moralmente corretos. Com a intenção de justificar essa proposição, o filósofo procede a uma analogia entre o conhecimento moral e os saberes técnicos, como a medicina, a navegação e a marcenaria.

Nos diferentes ofícios, o conhecimento é necessário para que a finalidade específica de uma ação seja atingida: para que o médico contribua com o restabelecimento da saúde de seu paciente, é preciso que tenha acesso ao saber medicinal; para um comandante conduzir corretamente sua embarcação pelos mares, é preciso que conheça as técnicas de navegação; e para um marceneiro produzir uma mesa de boa qualidade, são imprescindíveis os conhecimentos de marcenaria. Da mesma forma, para agir com virtude, é necessária a sabedoria da virtude. As escolhas humanas pelas ações justas, corretas, enfim, moralmente apropriadas são possíveis quando se conhece o bem.

Contudo, nas áreas técnicas, o saber não é garantia de que a atividade se realize com pleno êxito. É possível que o médico não pretenda a cura do doente, que o comandante queira, por um motivo qualquer, desviar-se do trajeto correto e que o marceneiro esteja decidido a executar sua obra com muitas falhas.

Neste ponto, situa-se o limite da analogia entre os saberes técnicos e o conhecimento moral, pois, segundo Sócrates, o conhecimento da virtude é condição necessária e suficiente para a vida virtuosa, ou seja, aquele que conhece a virtude sempre conduz virtuosamente sua vida, uma vez que nenhum ser humano procura decididamente o que é um mal para si – e a virtude, convém reafirmar, é o bem incondicional. Conhecimento do bem e prática do mal são noções antagônicas, porque a alma humana, conhecendo a virtude, jamais se equivoca em suas escolhas.

Sob o prisma socrático, o saber moral é o conhecimento supremo, sendo essa sabedoria a própria virtude. Justiça, prudência, piedade, isto é, os bens da alma não são rigorosamente diferentes virtudes, mas sim expressões da virtude, do conhecimento. No diálogo denominado Protágoras, encontra-se um exemplo oferecido por Sócrates acerca da unidade das virtudes, quando esse filósofo afirma que coragem não é sinônimo de destemor, consistindo, na realidade, no conhecimento sobre a necessidade de recuar em razão de um risco ou de enfrentar uma situação de perigo, quer dizer, a coragem, assim como todas as expressões virtuosas, é essencialmente sabedoria.

Julgamento e morte

A atividade filosófica de Sócrates provocou desconforto nos círculos sociopolíticos dominantes na cidade de Atenas, especialmente pela profundidade de seus questionamentos, que desafiavam os saberes socialmente estabelecidos. Esse fato resultou no julgamento de Sócrates pelo tribunal ateniense, sob a acusação de corrupção da juventude – muitos jovens acompanhavam o filósofo em suas atividades especulativas – e de impiedade – descrença nos deuses da pólis.

De acordo com o relato de Platão, em seu texto Apologia de Sócrates, o filósofo, diante de seus julgadores, não efetuou a própria defesa, mas a defesa da pesquisa filosófica, o que é coerente com seu entendimento de como se deve viver: filosoficamente.

O desfecho do julgamento foi a condenação de Sócrates à morte. Seu projeto filosófico, porém, persiste nas investigações de Platão e de Aristóteles; mais do que isso, persiste na tradição filosófica que se constrói da Antiguidade grega aos tempos atuais.

Autoria: Fernanda Negreiros

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