Filosofia

A Ética de Aristóteles

O tema principal da ética de Aristóteles é delimitar o que é o “bem” e o significado que ele tem para o homem. Somente quem conhece o bem é capaz de encontrar a felicidade, que na filosofia aristotélica não é um sentimento passageiro, e sim “obra de uma vida inteira”.

A ideia do “bem”

Aristóteles começa a Ética nicomaqueia provavelmente dedicada a seu filho Nicômaco e o mais importante de seus textos sobre o bem e o comportamento dos homens – com estas palavras:

“Toda arte e todo saber, assim como tudo que fazemos e escolhemos, parece visar algum bem. Por isso, foi dito, com razão, que o bem é aquilo a que todas as coisas tendem, Mas há uma diferença entre os fins: alguns são atividades, ao passo que outros são produtos à parte das atividades que os produzem.”

Aristóteles, Ética a Nicômano, 1094a 1 -5.

A Ética de Aristóteles
Página de códice medieval da Ética a Nicômano.

Essa afirmação contém duas teses fundamentais da ética aristotélica. A primeira: todas as coisas tendem ao bem, o que significa, na doutrina do filósofo, que o bem é a finalidade de todas as coisas. A segunda: chega-se ao bem por dois caminhos: a) pelas atividades práticas, isto é, aquelas que contêm seus próprios fins (ética e política); b) pelas atividades produtivas (artes ou técnicas).

Em relação à ética, o bem leva cada indivíduo a ser capaz de viver com os outros, na polis. Em outras palavras, a ética, no campo individual, prepara terreno para a política, no campo coletivo. Para Aristóteles, a finalidade da política é a busca do bem de todos os homens.

E qual é o bem de todos os homens? A felicidade, responde Aristóteles. A felicidade, porém, não é um sentimento que aparece, instala-se e vai embora; ao contrário, é “obra de uma vida inteira”.

“O bem ético pertence ao gênero da vida excelente e a felicidade é a vida plenamente realizada em sua excelência máxima. Por isso não é alcançável imediata nem definitivamente, mas é um exercício cotidiano que a alma realiza durante toda a vida (…) de acordo com a sua excelência mais completa, a racionalidade.”

Marilena Chaui, Introdução à história da filosofia, 1, p. 442.

As virtudes: o justo meio

A virtude (areté) é a expressão maior da excelência de uma pessoa, de sua integridade, de sua identidade. A paixão, por outro lado, torna-a confusa, dividida entre desejos contrários, conflitantes, opostos. Alguém sob o domínio da paixão pode inclinar-se ao vício, que é o excesso ou a falta da paixão. A virtude é encontrar, pelo uso da razão, o meio-termo entre esses extremos, que Aristóteles chamou de justo meio.

Suponha-se alguém dominado pelo prazer (que, para Aristóteles, é uma paixão). Esse alguém pode ser libertino (um dos extremos do prazer prazer em excesso) ou insensível (o extremo oposto: falta de prazer), O justo meio, aqui, é a temperança, à qual se chega pelo uso da razão.

A virtude, assim, está ligada à razão. E, como todo homem é dotado de razão, todo homem pode alcançar a virtude. Basta identificar a paixão que o domina, reconhecer seus extremos e procurar, racionalmente, seu justo meio.

A maior de todas as virtudes, diz Aristóteles, é a justiça. Sua força sobre as demais consiste em sua perfeição, porque quem é justo projeta-se mais para o outro do que para si mesmo. Em outras palavras, tudo que protege o conjunto dos indivíduos (a sociedade) é mais importante do que aquilo que protege somente um dos membros dessa sociedade, Por isso, dos males, a injustiça é o maior, pois destrói o tecido social.

Política e Estado

Como Platão, Aristóteles também faz um estudo dos regimes políticos, divididos em monarquia, aristocracia e politeia ou república. Tal qual Platão, Aristóteles considera que cada um deles pode degenerar a monarquia, em tirania; a aristocracia, em oligarquia; a democracia, em anarquia.

O melhor dos regimes possíveis consistirá em uma combinação do que há de melhor em cada um deles. O melhor da república é a liberdade e a igualdade; da monarquia, a capacidade de criar riquezas; e da aristocracia, sua excelência, capacidade e qualidades intelectuais,

Entre os escritos políticos de Aristóteles, a Constituição de Atenas, descoberta no século XIX no Egito, ocupa um lugar especial. Essa obra era parte das 158 constituições que Aristóteles reunira a fim de ter uma base empírica para a reflexão sobre teoria política.

“Uma constituição é a ordem ou distribuição dos poderes de um Estado, isto é, a maneira como são divididos, a sede da soberania e o fim a que se propõe a sociedade.”

Aristóteles, Política, III, 1278b 6-10.

Por: Roberto Braga Garcia

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