Geografia

Correntes do Pensamento Geográfico

Com o surgimento da ciência geográfica, surgem também as primeiras correntes do pensamento geográfico. A partir do século XIX, a Geografia vê nascer concepções diferentes a respeito da relação entre o ser humano/ sociedade e o meio/espaço.

Algumas correntes valorizaram mais o ser humano enquanto sociedade e com sua capacidade de transformar o espaço onde vive; outras acreditaram mais nas forças naturais como elementos preponderantes no seu modo de vida. Vejamos a seguir as principais correntes de pensamento da Geografia e suas diferentes formas de entender a relação sociedade/espaço.

1. Determinismo geográfico

Surgiu no século XIX, na Alemanha, com Friedrich Ratzel, que acreditava que o meio é determinante na vida do ser humano, isto é, a sociedade, de certa forma, reflete o espaço e suas características naturais.

Para essa corrente, “o Homem é produto do meio”, ou seja, o meio natural determina as condições de vida e a reprodução técnica da sociedade. Entre as principais ideias dessa corrente está a teoria do espaço vital, em que o espaço é determinante e características físicas como relevo, clima, vegetação e hidrografia são decisivas na formação da sociedade. Essa corrente influenciou muito a geopolítica do século XIX e início do XX, uma vez que ao defender a importância do espaço acabou gerando guerras por territórios.

O determinismo influenciou no que podemos chamar de expansionismo, ideia de que a nação precisa conquistar mais território, mais espaço físico, pois é nele que está a riqueza material, mineral, hídrica etc. Alguns exemplos de países em que as ideias deterministas ganharam notoriedade são Alemanha, Japão e Estados Unidos.

2. Possibilismo geográfico

Paul Vidal de La Blache, maior expoente
da Escola Geográfica Possibilista.

O possibilismo nasceu na França, no final do século XIX e início do século XX, com o pensador Paul Vidal de La Blache. Para ele, o homem (sociedade) consegue adaptar o meio pela técnica, pelo trabalho. La Blache dedicou-se à ideia de gênero de vida, com base na relação entre sociedade e espaço. Neste, o ser humano não é um produto do meio, mas, sim, o contrário, uma vez que, pela técnica, com o advento das revoluções tecnológicas, o ser humano consegue transformar o espaço, adaptando o relevo, adaptando-se ao clima, transformando cursos dos rios, construindo hidrelétricas, por exemplo.

Nota-se grande diferença entre a corrente anterior, defensora de que o ser humano era condicionado pelo meio, e a teoria Lablachiana.

3. Método regional

Corrente que enfatiza a aplicação do princípio da analogia, isto é, da comparação. Assim, para entender melhor o espaço e as interações sociais dentro dele, a comparação e a diferenciação de áreas são elementos fundamentais. O método regional prioriza, ainda, a análise da interação entre fenômenos naturais.

Essa corrente ganhou maior notoriedade na década de 1940, com Richard Hartshorne e Alfred Hettner, que defenderam a importância de criar referenciais de análise por meio da comparação dos lugares, para entender melhor o espaço regional, conhecer realidades locais, suas qualidades, seus problemas socioeconômicos e, assim, tornando possível uma intervenção mais adequada do ser humano. Entretanto, é possível identificar esse tipo de pensamento bem antes, com o filósofo Immanuel Kant, no século XVIII, e com o geógrafo Karl Ritter, no século XIX.

4. Geografia teorética ou quantitativa

Essa teoria considera os números como fundamentais para explicar a sociedade e a natureza. Defende o uso de métodos matemáticos e estatísticos de quantificação dos fenômenos naturais e sociais para seu melhor entendimento.

Também ficou conhecida como Nova Geografia quando surgiu, após a Segunda Guerra Mundial, na década de 1950. Essa forma de pensamento favoreceu a criação de indicadores socioeconômicos, bem como de institutos de análise baseados em recenseamentos para entender melhor a sociedade.

5. Geografia crítica

A corrente começou a formar-se como escola de pensamento a partir da década de 1970, inicialmente na França, com o advento da obra Geografia: isso serve, em primeiro lugar, para fazer a guerra, de Yves Lacoste, e da revista Heródote, também fundada por Lacoste, em 1976. Principal corrente da área no Brasil, defendida por Milton Santos, expoente da Geografia brasileira, acredita que a Geografia tem o papel de denúncia, crítica e transformação social.

Também conhecida como Geografia marxista, enxerga a sociedade procurando identificar seus problemas, suas contradições. Atua também na crítica contundente ao capitalismo e às desigualdades sociais, inerentes ao processo de produção do espaço geográfico.

A Geografia crítica considera a produção e transformação do espaço como resultado do trabalho humano, de modo a enfatizar os processos de exploração e a desigualdade de condições entre grupos sociais e os diversos países. Considera, ainda, que o atraso socioeconômico das nações é resultado de um processo histórico de exploração intencional, organizado pelas nações mais desenvolvidas.

Milton Santos, geógrafo brasileiro de grande importância
para o pensamento geográfico mundial.

6. Fenomenologia ou Geografia humanística

A corrente tem como fundamentos os trabalhos realizados por Yi-Fu Tuan, Anne Buttimer, Edward Relph e Mercer e Powell, bastante relacionados à fenomenologia existencial. Notam-se, ainda, influências de Hegel e do filósofo Edmund Husserl (1859-1939). Entre as principais ideias, destaca-se a valoração das percepções do indivíduo e do grupo social na busca de compreender a forma de sentir das pessoas em relação aos seus lugares. Acredita que a Geografia deve ter abordagem focada no ser humano, nas relações sociais, considerando as populações, suas características políticas e, principalmente, sociais. Assim, foi fundamental para a definição do conceito de lugar como espaço apropriável por meio do sentimento.

7. Geopolítica

Entre as maneiras de estruturar o pensamento geográfico, a partir do século XIX ganha destaque o avanço da geopolítica. Nesse sentido, evidencia-se o teórico da expansão imperialista Halford Mackinder, que com sua contribuição à Escola Possibilista chegou ao posto de vice-presidente da Royal Geographical Society, ocupando também cátedra na Universidade de Londres.

O pensamento de Mackinder ganha vulto quando, em 1904, o autor divulga seu estudo denominado Geographical Pivot of History, no qual formula um dos conceitos vitais dessa escola: o de área pivô ou heartland. Nesse estudo, Mackinder estabelece uma divisão do mundo baseada em duas grandes faixas circulares, as quais denominou “crescente interior” ou “marginal” e “crescente exterior” ou “insular”, tendo como centro a heartland. Formulou também uma lei fundamental, a qual dizia que “quem dominar a Europa Oriental dominará o coração continental; quem dominar o coração continental controlará a ilha-mundo; quem dominar a ilha-mundo dominará o mundo”

A divisão do mundo de Mackinder é um dos alicerces da geopolítica.

Apesar da contribuição de Mackinder, coube ao sueco Rudolf Kjellen empregar pela primeira vez o termo geopolítico que conceituava a ciência do Estado como dominador do espaço. Muito influenciado por Ratzel, Kjellen ressalta formulações que serviram de inspiração para o nazismo.

Com isso, Kjellen influencia muitos geógrafos alemães, como Karl Haushofer, escolhido por Adolf Hitler como presidente da Academia Germânica na década de 1930, local onde diversos estudos sobre a geopolítica foram produzidos. Em suma, a geopolítica acaba por atrair muitos governos, como da Alemanha e dos Estados Unidos, interessados em mobilizar-se com base no princípio geopolítico básico: “espaço é poder”.

Por: Wilson Teixeira Moutinho

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