Literatura

Terceira Fase do Modernismo Brasileiro

A mistura entre tradição e experimentação caracterizou a terceira fase do modernismo, quando a linguagem foi trabalhada de forma ainda mais incisiva. Na prosa, destacaram-se Guimarães Rosa e Clarice Lispector; na poesia, Joao Cabral de Melo Neto.

Contexto social e histórico

Sob o ponto de vista histórico, não houvera grandes mudanças do Brasil da 1ª geração moderna (1922) para o da 2ª geração moderna (1930), mas, do Brasil de 1945 para o desses dois períodos citados, as alterações histórico-sociais foram profundas, como em todo o mundo ocidental:

A Segunda Guerra Mundial (39/45) – cujas consequências já tinham sido abordadas por Carlos Drummond de Andrade em alguns de seus livros de poema, imediatamente posteriores ao conflito mundial –; a queda de Getúlio Vargas (45) e o consequente fim do Estado Novo; a promulgação de uma nova Constituição.

A lembrança desses fatos já basta para percebermos que a sociedade brasileira é, nesse momento, mais complexa, pois são mais sofisticados os comportamentos e as relações coletivas e individuais.

É natural, portanto, que a literatura e a arte em geral passem, também, por mudanças, as quais só não são maiores porque o mundo cultural abordado é o mesmo, ou seja, a sociedade brasileira.

Características estilísticas da terceira fase modernista

Os escritores da geração de 45 propunham a renovação da poesia pela forma e pela linguagem, pois, a princípio, a poesia é a arte da palavra. Tal princípio contraria a postura da geração anterior, declaradamente devota da arte politicamente engajada, de linguagem mais simples e direta com o intuito de conscientizar os leitores.

Retratos dos autores da terceira fase do modernismo.
Clarice Lispector e Joao Cabral de Melo Neto: Expoentes da terceira fase modernista brasileira.

Prosa

A exemplo da 2ª geração, a prosa continuou a abranger o psicológico, o urbano e o regional:

A abordagem psicológica é bem mais profunda e detida em relação às abordagens anteriores, o que também é natural, tendo em vista a maior complexidade social, conforme já mencionado.

Esse psicologismo mais refinado teve, em Clarice Lispector, a ressonância necessária, dada a sua, também refinada, capacidade de observação e análise, sem obviedades e sem concessões.

Quanto ao regionalismo, ele se apresenta de maneira muito renovada na linguagem, enquanto que, no conteúdo, assume uma abordagem mais universal com relação aos problemas da sobrevivência do indivíduo.

Mas esse “filtro” universalista, como por uma porta semiaberta, permite a passagem do panorama da insistente desigualdade social e de todas as misérias daí advindas, ainda que, nesse momento, não haja o assumido proselitismo político, ou até socialista, conforme fizeram, anteriormente, autores da qualidade de Graciliano Ramos, Raquel de Queirós e Jorge Amado.

Guimarães Rosa é quem dá o tom a essa modalidade de regionalismo graças, principalmente, a um desenvolvimento mais intenso e elaborado.

Poesia

Na poesia de 45, são resgatadas algumas fórmulas anteriores ao Modernismo, como a preocupação formal.

Ainda que não se chegue à existência de uma nova geração de sonetistas, em certas produções, detecta-se certa constância na elaboração técnica e, em outras, inesperada proximidade da atitude dos clássicos antigos, ao menos no que diz respeito à objetividade da linguagem. Linguagem que nada tem a ver com aquela que caracterizou a poesia do primeiro momento modernista, chegando mesmo, às vezes, a resvalar na erudição.

Quanto ao conteúdo, a tematização mais comum é a problemática existencial, não havendo, portanto, significativo distanciamento da abordagem de poetas da 2ª geração, especialmente Carlos Drummond, o qual continua a produzir plenamente.

As diferenças ficam por conta das mudanças sociais já aventadas anteriormente. A atitude de denúncia social encontra guarida, ainda que não de maneira massiva, na obra de João Cabral de Melo Neto, o nome mais notável da poesia desse período modernista, e na de Thiago de Mello, além de Ledo Ivo, ainda que neste, de maneira mais intermitente.

Por: Paulo Magno da Costa Torres

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