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Filosofia Medieval

A filosofia medieval elaborou-se sob densa ascendência do cristianismo, institucionalizado na Igreja Católica, fixando parâmetros que condicionaram os pensamentos, as explicações, os sentimentos e as condutas dos seres humanos em suas relações entre si e com o mundo.

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Do ponto de vista do conhecimento, a filosofia medieval instaurou o problema das relações entre o saber revelado e o saber racional. Assentou-se na suposição de verdades divinamente reveladas à humanidade e recepcionadas no plano da fé, compondo, assim, um amplo repertório de respostas doutrinárias para antigas interrogações dos seres humanos, versando, entre outras questões, sobre a origem do Universo, a natureza humana e os valores morais.

Nesse contraste entre o conhecimento revelado do cristianismo e o conhecimento racional da filosofia medieval, emerge o dilema: é possível compatibilizar a sabedoria cristã e a sabedoria filosófica?

Patrística

Se, no início do cristianismo, prevaleceu o desprezo à tradição filosófica grega, o desenvolvimento da filosofia medieval, contudo, foi assinalado por tentativas de conjugação da crença religiosa com a especulação filosófica. Essa etapa de formação da filosofia cristã é denominada patrística.

Conduzida por representantes do corpo eclesiástico católico, atingiu sua mais rebuscada expressão intelectual em um autor que exerceu ascendência determinante sobre o pensamento medieval: Aurelius Augustinus (354-430), conhecido como Santo Agostinho ou Agostinho de Hipona.

A Filosofia de Santo Agostinho (354-430)

Agostinho, natural de Tagaste, na Numídia, província africana pertencente ao Império Romano, atual Argélia, teve as primeiras décadas de sua vida pontuadas pelos estudos, pelas atividades de professor, pela adesão aos prazeres mundanos e, sobretudo, por um permanente desconforto existencial. Converteu-se definitivamente ao cristianismo no ano de 482 e, mais tarde, tornou-se bispo na cidade de Hipona – atual Annaba, na Argélia. A partir daí, dividiu-se entre as atividades sacerdotais e a reflexão filosófica de orientação cristã, registrada em escritos como A cidade de Deus e Confissões.

Filósofo Agostinho de Hipona sendo retratado em um vitral.
Santo Agostinho.

No livro Confissões, Agostinho combina relatos autobiográficos, centrados na descrição de seus dramas interiores e em seu itinerário de conversão ao cristianismo, com a explanação de conceitos filosóficos inspirados em suas leituras sobre Platão, especificamente em sua apropriação do neoplatonismo de Plotino (205-270).

Nas investigações filosóficas agostinianas, temas nucleares da filosofia grega, como a natureza humana, a moral e o conhecimento, são racionalmente examinados em sua confluência com a teologia cristã.

Na filosofia agostiniana, são feitas ponderações acerca da origem do mal, do conhecimento identificado à iluminação divina, da memória, da felicidade e do tempo.

Escolástica

Se a patrística, com sua expressão sofisticada no pensamento de Agostinho de Hipona, configura a filosofia medieval em sua primeira fase, os séculos finais da época medieval são caracterizados pela supremacia da escolástica, termo que denomina os estudos teológicos e filosóficos desenvolvidos nas universidades medievais, em especial a partir da tradução dos textos aristotélicos para o idioma latino.

O filósofo Tomás de Aquino (1224-1274) é a principal referência do pensamento escolástico, e seu sistema filosófico, conhecido como tomismo, efetua a apropriação das teses filosóficas de Aristóteles pelo cristianismo.

A Filosofia de São Tomás de Aquino

De origem familiar nobre, Tomás de Aquino ingressou na ordem religiosa dos dominicanos, desenvolveu seus estudos em Paris e Nápoles e lecionou em diferentes universidades europeias. Suas atividades de pesquisa e magistério proporcionaram a redação de textos importantes, como O ente e a essência, Suma contra os gentios e Suma teológica, que se tornaram clássicos na história da especulação filosófica. Nesses escritos, a tentativa de conjugação da fé cristã com o saber racional, característica da filosofia medieval, adquiriu sua mais completa e explícita elaboração.

Filósofo Tomás de Aquino sendo retratado em um vitral.
São Tomás de Aquino.

Na Suma contra os gentios, Tomás diferencia verdades reveladas e verdades racionais. As primeiras procedem diretamente da revelação divina e pertencem à dimensão supranatural da fé e as últimas derivam da racionalidade e são conquistadas pela aplicação da inteligência humana aos dados recolhidos pelos sentidos. Entre ambas, observa o filósofo, não há conflitos, mas uma convergência na qual a teologia revelada orienta o conhecimento racional.

De acordo com Tomás de Aquino, pelo itinerário da razão não é possível, por exemplo, atingir a trindade divina – Pai, Filho e Espírito Santo – e a encarnação do verbo divino na pessoa humana de Jesus Cristo. Por outro lado, a investigação filosófica é capaz de comprovar racionalmente a existência de Deus mediante a observação de seus efeitos, os fenômenos físicos do mundo.

Tomás de Aquino, portanto, mesmo atribuindo limitações ao conhecimento construído racionalmente, concede elevada importância à filosofia, à medida que a pesquisa racional se baseia naquilo que, a despeito da diversidade de crenças, é comum a todos os seres humanos, a saber, a razão. Nesse sentido, dedica-se à demonstração racional acerca de existência de Deus, desenvolvida em sua Suma teológica.

Conclusão

Na filosofia medieval, fica evidente a persistência da prática filosófica em um universo cultural cristão. Ainda que condicionados pelos fundamentos doutrinários do cristianismo, os temas referentes ao mundo e ao ser humano permanecem em sua condição de objetos de problematizações filosóficas. A filosofia resiste em sua natureza de atividade mobilizada por debates racionais.

Bibliografia

STORCK, Alfredo. Filosofia medieval. Rio de Janeiro: Zahar, 2003.

Por: Wilson Teixeira Moutinho

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