Filosofia

Luta de Classes

Para Marx, pode-se dizer que a história de todas as sociedades, antigas ou modernas, é, na verdade, a história da luta de classes. Ao longo dos anos, homens livres, patrícios, barões, mestres e senhores formaram classes que se opuseram a escravos, plebeus, servos, companheiros e vassalos, configurando uma luta ininterrupta, por vezes aberta, por vezes camuflada, entre opressores e oprimidos.

A partir de uma perspectiva sócio-histórica, o pensamento sociológico de Karl Marx revela uma sociedade que esconde, por trás de uma falsa impressão de unidade, uma divisão fundamental entre capital e trabalho, entre exploradores e explorados. A partir dessa constatação, podemos verificar a última das matrizes intelectuais que compõem o pensamento de Marx, a saber, as práticas do socialismo francês desde o início do século XIX, a luta de classes.

Nesse cenário, as diversas fases de desenvolvimento da luta operária são o solo para gerar as novas bases de uma ciência do socialismo. Marx contestava um socialismo vindo de cima, fosse de chefes parlamentares ou de uma minoria organizada em alguma seita secreta. Sua teoria social da autoemancipação era complementada por elementos oriundos do trabalho de socialistas franceses. De Saint-Simon (1760-1825), retirou a noção da “classe mais numerosa e mais empobrecida”.

A concepção de “luta de classes” já estava presente entre outros revolucionários — republicanos, jacobinos, como Graccus Babeuf, Théodore Dézamy e Louis Auguste Blanqui; utopistas, anarquistas, tais como Étienne Cabet, Pierre Leroux e Pierre-Joseph Proudhon, que já organizavam os trabalhadores franceses sob a bandeira da luta entre o trabalho e o capital. Todos tinham, cada um à sua maneira, uma visão do processo de luta e de transição para uma sociedade socialista e, portanto, mais igualitária. Marx irá acrescentar à essas teorias o conceito de alienação, investigando os mecanismos de alienação no processo de produção e apropriação econômica de mais-valia.

A luta de classes é o motor da história; a modernidade, cenário do desenvolvimento das sociedades capitalistas, em especial, é marcada por uma luta entre proprietários e não proprietários dos meios de produção e reprodução da vida. Para que o sistema capitalista funcione, entre outras coisas, uma parcela da sociedade precisa ser expropriada de suas terras e de seus meios de produção. Essa parte, “livre”, que nada tem a não ser sua própria vida, seu corpo e suas forças para trabalhar, precisa vender sua força e seu tempo de trabalho para a outra parte, que detém os meios de produção e comanda o trabalho. Além disso, de tudo aquilo que essa classe trabalhadora produz, recebe apenas uma parte. A diferença entre o trabalho produzido e o trabalho efetivamente remunerado, menor que aquilo ao que corresponderia, é a mais-valia (ou mais-valor). Essa é a origem do lucro da classe proprietária dos meios de produção.

E o que é, então, a alienação? Em primeiro lugar, é importante termos a noção de separação entre o ser humano e a terra onde trabalha e de seus meios de produção, restando a ele apenas sua força de trabalho; em seguida, é a separação do produto de seu trabalho, que pertence ao burguês. A força de trabalho, que o trabalhador imprime na matéria-prima tornando-a um objeto útil ou desejável, não retorna completamente a ele, pois sua remuneração é menor do que seu esforço produz.

O produto de seu trabalho se torna estranho, alheio. A consequência disso é que o ser humano se separa de si mesmo, não se reconhece no mundo que criou, porque nunca chega a apropriar-se dele. Aquilo que é produzido sob uma relação parece ter uma existência autônoma, como uma coisa pronta. Quando as relações aparecem como coisas, diz-se que houve um processo de reificação. Mais ainda, as coisas passam a exercer sobre as pessoas um certo poder, como um feitiço. A essa inversão, na qual o produto parece deter mais poder que o produtor, Marx dá o nome de fetiche. Vejamos: Muitos desses conceitos críticos sobre a economia burguesa encontram-se na obra mais conhecida de Marx, O capital: crítica da economia política (1867). Trata-se de um trabalho que resulta de anos de pesquisas realizadas, algumas, como vimos, em colaboração com Engels. Uma delas, em especial, merece nossa atenção, por lidar com um conceito importante para a sociologia: o de ideologia.

A economia política esconde esses elementos históricos, naturalizando-os, isto é, fazendo-os parecerem naturais e, portanto, necessários, irresistíveis, restando aos trabalhadores apenas conformarem-se a eles. Mas esse processo de “enfraquecimento” dos trabalhadores e de ocultamento da história não é realizado apenas pela violência da ordem vigente no sistema capitalista: a luta tem outros campos, que se inserem até mesmo no pensamento. A luta parte do real e determina a consciência dos homens. Essa “conquista” do pensamento é o que se chama ideologia.

Não se trata meramente de uma mentira que se cria para iludir os trabalhadores ou mesmo a sociedade como um todo. Pelo contrário, a ideologia é como um par de óculos com os quais conseguimos enxergar o mundo, com os quais tudo o que aparece imediatamente apareça como “verdade”. Não se trata somente de “ver” as coisas, pois a ideologia determina nossa relação com o mundo, nossa própria maneira de viver e nossos valores. Por exemplo, nos faz entender o Estado como realização máxima do desenvolvimento da humanidade, condicionando a passividade diante das instituições; nos faz ver o trabalho como edificante, submetendo-nos a seus sofrimentos cotidianos.

Também é a ideologia que faz do saber científico algo separado da vida comum, tornando o conhecimento dos trabalhadores que criam a sociedade e suas condições de realização, inferior ao dos “pensadores” e fazendo com que esses sejam privilegiados, à medida em que orientaria a razão a serviço dos interesses da classe dominante, justificando o mundo em que vivemos como “natural”, retirando qualquer possibilidade de crítica a ordem instaurada

No entanto, uma das chaves para os trabalhadores saírem de sua situação de alienados, explorados e expropriados é a tomada de consciência dessa própria situação como um fato histórico que, justamente por ser histórico, pode ser alterado, intensificando-se a luta que tanto se tenta esconder. Essa luta, contra o presente estado de coisas, foi chamada de comunismo.

A conversão de Marx ao comunismo se dá por meio de sua ruptura com a pequena-burguesia liberal, nas lutas contra a censura e perseguição política na Alemanha e na participação, ainda em 1843, na Liga dos Justos, que posteriormente transformou-se em Liga Comunista, em 1947, na França, passando de uma organização operária clandestina para a ação pública. Os inumeráveis levantes de trabalhadores que se deram nestes anos marcaram toda uma geração. Logo vemos na obra de Marx o impacto que tiveram esses movimentos sociais.

Por: Wilson Teixeira Moutinho

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