História do Brasil

AI-5

Em 1967, assumiu o poder Costa e Silva, que não se identificava com os militares da “Sorbonne” (favoráveis a uma intervenção temporária, com o uso da força unicamente quando preciso), e sim com os da “linha dura” (defendiam uma intervenção mais duradoura e controle da sociedade). Seu governo foi marcado pelo endurecimento do regime e pelo decreto do AI-5, o mais duro instrumento de repressão política, em dezembro de 1968.

Antecedentes

Após o golpe militar de 1964, assume o governo o marechal Castello Branco, da linha moderada do Exército. Implanta Atos Institucionais (AIs), que permitem cassações de políticos, eleições indiretas para presidente e governadores, bem como reforço do Executivo. Para a economia, cria um plano chamado Paeg, que vence a inflação à custa de recessão e perdas salariais.

O presidente seguinte, Costa e Silva, é ligado a linha-dura do Exército. Costa defendia que o Estado pudesse se valer de quaisquer meios para controlar a sociedade. Cresce a tortura e o excesso de violência no país.

As causas do AI-5 e o endurecimento do regime

Foto do protesto onde um policial agride um manifestante.
Repressão da PM aos estudantes que reivindicavam refeições de melhor qualidade no restaurante Calabouço, Rio de Janeiro, em 1968.

Durante um protesto num restaurante universitário do Rio, em março de 1968, o estudante secundarista Edson Luís foi morto após um choque entre os manifestantes da UNE e as forças enviadas ao local para restabelecer a ordem.

A morte do estudante uniu diversos grupos oposicionistas, que compareceram ao enterro e o transformaram em um ato de protesto à ditadura, que reagiu com mais violência ainda.

A generalização do uso da coerção por parte dos militares gerou um efeito contrário na sociedade, que, indignada, exigiu a reabertura democrática do regime, promovendo várias passeatas, como a dos 100 mil, em 25 de junho de 1968.

Foto da passeata dos Cem Mil.
Passeata dos 100 mil, realizada na Cinelândia (Rio de Janeiro), com diversos setores da sociedade: Igreja, estudantes, artistas e intelectuais.

A recessão provocada pelo combate à inflação também lançou suas primeiras sementes, com os sindicatos de trabalhadores organizando as primeiras greves (em Osasco, SP, e Contagem, MG) pela restituição de seu poder de compra através da correção dos salários.

Para piorar o clima, numa das sessões do Congresso, o deputado Márcio Moreira Alves pediu o boicote ao desfile militar do 7 de setembro e apelou às mulheres brasileiras que não namorassem oficiais militares que compactuavam com a tortura e os excessos do regime.

O pedido irritou a cúpula do regime militar, que exigiu do Congresso a cassação do deputado e do STF o direito de processá-lo criminalmente. Numa atitude surpreendente, o Congresso se negou a suspender os direitos políticos do deputado.

Diante dessa insubordinação, Costa e Silva, que governou de 1967 a 1969, determinou o fechamento do Congresso e implantou, em dezembro de 1968, o AI-5 (Ato Institucional nº 5).

O AI-5

O AI-5 acabava com a esperança de retomo à vida democrática e, ao mesmo tempo, significava a vitória inconteste da “linha dura” sobre os militares castelistas.

Ele transferia os julgamentos de crimes contra a segurança nacional para a Justiça Militar e praticamente legalizava a tortura ao permitir qualquer forma de interrogatório que favorecesse a repressão contra dissidentes. A censura aos meios de comunicação também se tomou uma realidade.

Pelo AI-5 o presidente da República podia suspender direitos políticos, cassar mandatos, intervir em Estados e municípios e suspender garantias constitucionais, como a do direito de habeas corpus para pessoas acusadas de crime político.

Veja alguns trechos do Ato Institucional n° 5

Art. 1º. São mantidas a Constituição de 24 de janeiro de 1967 e as Constituições Estaduais, com as modificações constantes deste Ato Institucional.
Art. 2º. O presidente da República poderá decretar o recesso do Congresso Nacional, das Assembleias Legislativas e das Câmaras de Vereadores, por Ato Complementar, em estado de sítio ou fora dele, só voltando os mesmos o funcionar quando convocados pelo presidente da República.
(…)
Art. 4º. No interesse de preservar a Revolução, o presidente da República, ouvido o Conselho de Segurança Nacional, e sem as limitações previstas na Constituição, poderá suspender os direitos políticos de quaisquer cidadãos pelo prazo de 10 anos e cassar mandatos eletivos federais, estaduais e municipais.
(…)
Art. 7º. O presidente da República, em qualquer dos casos previstos na Constituição, poderá decretar o estado de sítio e prorrogá-lo, fixando o respectivo prazo.
(…)

Consequências do AI-5

A radicalização por parte dos militares geraria um racha dentro da oposição: o PCB pregaria uma oposição legalizada, enquanto o outro grupo de comunistas, reunidos no dissidente PC do B, defenderia a luta armada e a guerrilha.

Muitas revoltas apareceram, ligadas ou não ao partido: manifestações de estudantes, trabalhadores e até setores da Igreja contra denúncias de tortura. Destacam-se entre as dissidências do partido, a Vanguarda Armada Revolucionária (VAR – Palmares), o Comando de Libertação Nacional (Colina) e o Movimento Revolucionário de Outubro (MR-8).

Para combater os grupos armados, o governo Costa e Silva criou órgãos de repressão e inteligência (além do Serviço Nacional de Informações (SNI), tais como o Destacamento de Operações e Informações (DOI), o Centro de Operações de Defesa Interna (Codi) e o Departamento de Ordem Política e Social (Dops).

Em 1970 esses órgãos se oficializaram e se ampliaram no governo Médici, considerado um dos mais duros e repressivos do regime militar.

Referência

In: Paulo Bonavides Paes de Andrade. História constitucional do Brasil. 3. ed., Rio de Janeiro: Paz e Terra, p. 788-791.

Por: Paulo Magno da Costa Torres

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